quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Pequeno peptídeo aponta novo caminho para conter avanço da epilepsia

Um estudo experimental da Universidade Hebraica de Jerusalém indica que um peptídeo sintético, o TXM-CB3, pode reduzir a recorrência de crises epiléticas e atenuar danos neurológicos associados, atuando sobre processos de stress oxidativo e inflamação no cérebro. A abordagem, distinta dos medicamentos atuais que suprimem sintomas, sugere um potencial para modular a progressão da doença, especialmente com intervenção precoce.

Uma nova linha de investigação na luta contra a epilepsia está a ganhar forma nos laboratórios da Universidade Hebraica de Jerusalém. O foco recai não no sintoma mais visível – as crises –, mas numa espécie de ambiente biológico que parece alimentar a sua recorrência e, a prazo, contribuir para o agravamento da condição. A aposta reside num composto experimental minúsculo, um peptídeo batizado TXM-CB3, concebido para imitar a ação de uma proteína natural do organismo, a thioredoxina.

Esta proteína integra o sistema de defesa interno das células, ajudando a gerir o chamado stress oxidativo e a regular processos inflamatórios. São precisamente estes dois mecanismos que a ciência começa a associar fortemente não só ao desencadear de cada crise epilética, mas à forma como a doença se instala e progride, por vezes resistindo às terapias atuais. “A maioria dos tratamentos para a epilepsia concentra-se em reduzir as crises, mas o nosso objetivo era ver se poderíamos influenciar os processos subjacentes que podem conduzir a doença para a frente”, explicou o professor Tawfeeq Shekh-Ahmad, da Faculdade de Medicina, que orientou o trabalho.

A investigação, publicada na revista Redox Biology, foi conduzida principalmente pelos estudantes de doutoramento Prince Kumar Singh e Shweta Maurya, contando com a colaboração da professora Daphne Atlas, do Instituto de Ciências da Vida, que desenhou a família de peptídeos à qual pertence o TXM-CB3. A equipe partiu de modelos celulares que simulam atividade semelhante a crises, onde o composto conseguiu reduzir marcadores de dano oxidativo e modular a resposta imunitária para um perfil menos inflamatório.

O passo seguinte levou-os a testes em modelos pré-clínicos de epilepsia resistente a medicamentos, com crises recorrentes. Aí, avaliaram dois cenários cruciais. Num primeiro, a administração do TXM-CB3 logo após um evento inicial semelhante a um status epilepticus resultou num atraso no aparecimento das crises subsequentes, numa redução da sua frequência e numa melhor preservação de estruturas cerebrais ligadas à memória. Os animais tratados precocemente exibiram ainda menos comportamentos indiciadores de ansiedade e um desempenho superior em testes de memória de curto prazo.

Já quando o tratamento foi iniciado mais tarde, depois de estabelecido um ciclo de crises recorrentes, o peptídeo continuou a demonstrar capacidade para reduzir a atividade crítica ao longo do tempo. Contudo, e de forma que os investigadores consideram significativa, os défices de memória que já se haviam instalado não registraram melhorias substanciais. Esta disparidade de resultados dependendo do momento da intervenção sublinha, no entender da equipe, a importância crítica de uma abordagem terapêutica precoce. “O fato de termos observado tanto uma redução na atividade das crises como sinais de proteção cerebral nestes modelos experimentais fortalece a hipótese de desenvolver tratamentos que aproveitem as vias de proteção próprias do organismo”, comentou a professora Daphne Atlas.

A epilepsia afeta cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde, e até 40% dos casos mostram resistência aos fármacos atuais. Estes medicamentos, na sua maioria, atuam para conter a crise no momento, sem alterarem significativamente o curso da doença a longo prazo. A estratégia agora explorada é diferente: visa acalmar os sinais de stress químico e imunitário que podem estar na base da cronicidade e da progressão do quadro clínico.

É claro que estamos ainda numa fase embrionária. Os resultados, embora promissores, provêm de modelos experimentais, e um longo caminho de estudos é necessário para avaliar segurança, dosagem e eficácia em humanos. Apesar disso, a investigação traça uma direção palpável para o futuro. Aponta para a possibilidade de, um dia, se poder oferecer às pessoas com epilepsia não apenas um melhor controle das crises, mas uma terapia que possa mitigar as consequências neurológicas a longo prazo, influenciando positivamente a qualidade de vida de forma mais profunda. O cérebro, afinal, tem os seus próprios mecanismos de resiliência; a ciência tenta agora dar-lhes um empurrão.



Fonte: Health News
 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Sobrevivente de avalanche passa a ter epilepsia rara provocada por Sudoku; caso vira estudo na Alemanha

Um homem de 25 anos desenvolveu um tipo raro de epilepsia após sobreviver a uma avalanche durante uma viagem de esqui nos Alpes, em novembro de 2008. Soterrado por cerca de 15 minutos, ele sofreu hipóxia — a redução crítica de oxigênio nos tecidos — antes de ser resgatado por um amigo, que realizou manobras de reanimação cardiopulmonar. O jovem foi encaminhado a um hospital na Alemanha, onde recebeu atendimento especializado.

Nos dias seguintes ao acidente, surgiram movimentos involuntários nas pernas durante a caminhada e na boca ao falar, sinais associados a danos cerebrais provocados pela falta de oxigênio. Após a estabilização clínica, o paciente foi transferido para uma clínica de reabilitação para dar continuidade ao tratamento.

Crises desencadeadas por estímulos visuais

Durante o período de reabilitação, o paciente retomou o hábito de resolver quebra-cabeças de Sudoku, atividade que apreciava antes do acidente. Foi nesse contexto que apresentou espasmos repetidos no braço esquerdo, que cessaram imediatamente ao interromper o jogo. O padrão chamou a atenção da equipe médica, liderada pelo neurologista Berend Feddersen, da Universidade de Munique, e motivou uma investigação detalhada.

De acordo com um relatório citado pela Live Science, publicado recentemente, exames de eletroencefalograma (EEG) identificaram atividade epiléptica na região centroparietal direita do cérebro, área relacionada ao controle motor do braço esquerdo. Uma ressonância magnética convencional não revelou lesões estruturais evidentes, o que levou os médicos a recorrer a métodos mais avançados.

Exames de ressonância magnética funcional (RMf), realizados enquanto o paciente resolvia o Sudoku, mostraram ativação cerebral ampla, com intensidade acentuada no córtex centroparietal. Já imagens ponderadas por difusão indicaram redução de fibras inibitórias nessa região, o que favorecia uma hiperatividade neural capaz de desencadear convulsões. Segundo o laudo médico, a hipóxia sofrida durante a avalanche foi apontada como a causa mais provável dessa vulnerabilidade.

O diagnóstico final foi de epilepsia reflexa, condição em que crises são provocadas por estímulos específicos. No caso, tarefas que exigiam processamento visual e espacial complexo, como a visualização tridimensional envolvida no Sudoku, atuavam como gatilho. O paciente não apresentou convulsões ao ler, escrever ou fazer cálculos simples, mas atividades visuais semelhantes, como ordenar números aleatoriamente, também induziam os episódios.

Tratado com medicação antiepiléptica, o jovem permaneceu sem crises por mais de cinco anos, segundo a Live Science. A fisioterapia reduziu os movimentos involuntários residuais, e, como medida preventiva, ele passou a evitar jogos e tarefas capazes de desencadear convulsões.

Embora cerca de 3,8% da população desenvolva epilepsia ao longo da vida, apenas entre 4% e 7% dos pacientes apresentam epilepsia reflexa. A literatura médica já descreveu casos associados a jogos como Zipai, na China, e Mahjong, em Taiwan, mas não havia registros anteriores de crises provocadas especificamente por quebra-cabeças de Sudoku.

Para os especialistas, o caso ilustra como danos cerebrais causados pela falta de oxigênio podem alterar circuitos neurais e transformar atividades cotidianas em potenciais desencadeadores de crises. Também reforça a importância do atendimento médico imediato em situações de hipóxia e do acompanhamento neurológico prolongado, fundamentais para a adaptação da rotina e a qualidade de vida dos pacientes.



Fonte: O Globo 




quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Belarus desenvolve novo remédio nacional contra a epilepsia


 Cientistas de Belarus desenvolveram o medicamento Gabapentina-NAN, destinado ao tratamento da epilepsia e de outras doenças do sistema nervoso. De acordo com a BelTA, parceira da TV BRICS, o fármaco já foi lançado no mercado nacional e pode substituir medicamentos equivalentes atualmente importados.

A inovação recebeu amplo reconhecimento em nível estatal. A Academia Nacional de Ciências de Belarus incluiu o medicamento entre os dez principais resultados científicos do país em 2025, na área de pesquisas básicas e aplicadas, ressaltando sua importância para a ciência e para a saúde pública.

O desenvolvimento do remédio levou mais de quatro anos de pesquisas e testes. Segundo os especialistas, o novo produto apresenta eficácia equivalente à dos medicamentos estrangeiros, mas com um custo cerca de 50% menor, o que amplia o acesso dos pacientes ao tratamento.

Os pesquisadores destacam que a seleção adequada dos componentes, incluindo o princípio ativo e os excipientes, foi um dos maiores desafios do projeto. Embora se apresente como uma cápsula simples, o medicamento exigiu estudos aprofundados e testes rigorosos para assegurar sua qualidade, segurança e eficácia.



Fonte: Tv Brics


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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Maioria das crianças com microcefalia por zika tem epilepsia, diz estudo


 A maioria das crianças com microcefalia associada ao vírus zika no Brasil apresenta um conjunto de sequelas neurológicas e sensoriais que impactam o desenvolvimento e aumentam o risco de morte. Um estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), publicado na revista Plos Global Public Health, mostrou que mais da metade dos pacientes apresentou epilepsia e déficit de atenção social e até 67% tiveram alterações oftalmológicas. Além disso, cerca de 80% apresentavam calcificações cerebrais em exames de imagem.

Segundo os pesquisadores, trata-se do maior estudo do mundo sobre os principais efeitos do zika vírus na infância, já que outras pesquisas se baseiam em séries de casos com poucos participantes. A Fiocruz analisou de forma detalhada a saúde e a evolução clínica de 843 crianças com a Síndrome Congênita do Zika (SCZ).

O estudo acompanhou 843 crianças nascidas entre 2015 e 2018, período que concentrou a epidemia de zika no Brasil. As informações foram coletadas presencialmente em consultas com mães e crianças em 12 centros de pesquisa do Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do país.

O zika vírus foi identificado pela primeira vez no Brasil em 28 de abril de 2015, e, nos meses seguintes, levou ao nascimento de milhares de bebês com microcefalia. A doença é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, vetor também da dengue e da chikungunya.

No estudo, os pesquisadores identificaram a microcefalia ao nascer em 71,3% das crianças (601 de 843). O estudo também mostrou que 20,4% das crianças desenvolveram o quadro apenas durante o acompanhamento pós-natal, não apresentando a condição ao nascer. Destas, cerca de 63% apresentavam microcefalia grave e 36%, moderada.

Ao todo, 394 crianças apresentaram microcefalia desproporcional, quando o corpo tem tamanho esperado, mas a cabeça é menor —padrão associado a danos cerebrais mais graves. Segundo a pesquisadora Maria Elizabeth Moreira, da Fiocruz, embora existam casos proporcionais, a maioria é desproporcional.

Os transtornos neurológicos foram frequentes e graves. A epilepsia, que causa convulsões graves, afetou entre 30% e 80% das crianças, com média de 58,3%. Déficits de atenção social, como ausência de sorriso social ou de fixação do olhar, foram relatados em pelo menos metade dos casos. Dificuldades de deglutição foram observadas em cerca de 46,9% das crianças.

Exames de imagem, como ultrassom, tomografia e ressonância magnética, revelaram danos estruturais severos em quase todos os participantes. Entre as alterações mais frequentes estão as calcificações cerebrais, depósitos anormais de cálcio no tecido do cérebro, que podem causar convulsões (crises com movimentos involuntários e, em alguns casos, perda de consciência), hipertonia (rigidez muscular aumentada) e espasticidade (contrações musculares persistentes que dificultam os movimentos).

Para o médico infectologista Kleber Luz, professor da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e coordenador do comitê de arbovírus da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), o estudo tem papel fundamental ao consolidar evidências que, embora já observadas na prática médica, ainda encontravam resistência em parte da comunidade científica.

Segundo ele, a síndrome congênita associada ao zika representou um quadro totalmente novo e, durante a epidemia, chegou a ser atribuída a outros fatores, como vacinas, pobreza ou condições ambientais, especialmente por ter atingido de forma mais intensa o Nordeste do país.

"É um estudo robusto, com muitas crianças e uma caracterização detalhada que solidifica os achados que médicos e pesquisadores já vinham observando desde a epidemia", afirma Luz.

A microcefalia associada ao zika tem características próprias e pode variar conforme o momento da gestação em que a mãe foi infectada, explica Moreira. Quando a infecção ocorre no primeiro trimestre, o cérebro do feto deixa de se formar adequadamente. Nos casos mais frequentes, em que a infecção acontece no segundo ou terceiro trimestre, o cérebro estava em crescimento e sofre destruição das células cerebrais, em um processo chamado apoptose.

"A gravidade varia de acordo com a extensão da lesão e com a idade gestacional em que o feto foi acometido."

O estudo também identificou fatores associados à microcefalia, como prematuridade, baixo peso ao nascer e outras malformações congênitas. A prematuridade, em especial, tende a agravar o prognóstico.

De acordo com a pesquisadora, cerca de 30% das crianças com formas mais graves da síndrome morreram no primeiro ano de vida, principalmente por complicações como pneumonia por aspiração e infecções recorrentes. Aproximadamente 70% seguem em acompanhamento, mas ainda não é possível estimar a expectativa de vida, já que se trata de uma condição recente e pouco estudada.

Luz destaca que, embora estudos menores já tivessem identificado essas alterações, faltava uma análise de grande escala que confirmasse a gravidade e a permanência das sequelas. Um dos principais exemplos é a epilepsia associada à microcefalia por zika, que, segundo ele, não é um quadro comum.

É uma epilepsia grave, de difícil controle, que exige múltiplos medicamentos, doses altas e acompanhamento constante", afirma.

Outro ponto destacado pela pesquisadora da Fiocruz é a importância da estimulação precoce. Segundo ela, a estimulação sensorial, motora e cognitiva pode permitir que áreas preservadas do cérebro assumam funções das regiões lesionadas.

"Intervenções como fisioterapia, fonoaudiologia, correção precoce de déficits visuais e auditivos e controle rigoroso das convulsões são fundamentais para melhorar o prognóstico", diz Moreira.

Luz afirma que as sequelas são irreversíveis e que a expectativa de vida dessas crianças, em média, varia entre 10 e 15 anos, embora algumas possam viver mais com os avanços da medicina.



Fonte: Folha de São Paulo

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Paulo Dantas sanciona lei que garante atendimento prioritário para pessoas com epilepsia em Alagoas


 MACEIÓ (AL) — O governador de Alagoas, Paulo Dantas, sancionou a Lei nº 9.791/2025, que estabelece o atendimento prioritário para pessoas diagnosticadas com epilepsia em todo o território estadual. A medida, publicada no final de dezembro, tem a finalidade de garantir agilidade e dignidade no acesso a serviços públicos e privados para esses pacientes.

Regras da nova legislação

De acordo com o texto da lei, a prioridade se estende aos atendimentos em diversos estabelecimentos:

Atendimento conjunto: Os acompanhantes ou atendentes pessoais das pessoas com epilepsia também terão direito ao atendimento prioritário junto ao titular do benefício.

Formas de atendimento: Os estabelecimentos poderão oferecer guichês, caixas ou linhas específicas. Caso não existam postos exclusivos, a prioridade deve ser garantida imediatamente após o atendimento que estiver em curso.

Comprovação: Para usufruir do direito, o cidadão poderá apresentar um laudo médico ou uma carteirinha de identificação. A regulamentação sobre como será a expedição dessa carteira ainda será definida por ato do Poder Executivo.

Vigência

A lei foi assinada no Palácio República dos Palmares e entrou em vigor na data de sua publicação, passando a valer já para este início de 2026. A iniciativa reforça as políticas de inclusão no estado, reconhecendo as especificidades e necessidades de quem convive com a condição.



Fonte: BR104