quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Remédio evita destruição de neurônios


 Medicamento de baixo custo usado para pacientes de epilepsia mostra-se promissor no combate à formação de partículas tóxicas associadas ao Alzheimer

Um medicamento amplamente usado contra epilepsia pode atuar em uma etapa crítica do desenvolvimento da doença de Alzheimer: a produção do principal componente de placas que se acumulam no cérebro ao longo dos anos. Publicado na revista Science Translational Medicine, o estudo com o levetiracetam mostrou que o anticonvulsivante reduz a formação de um subproduto tóxico da proteína beta-amiloide (AB), que, em excesso, provoca a morte dos neurônios. 

Caracterizado pela destruição gradual das células cerebrais, o Alzheimer deve afetar 130 milhões de pessoas em 2050, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Atualmente, as opções de tratamento são restritas aos sintomas, e os medicamentos específicos são para fases muito iniciais, além de poderem causar efeitos colaterais graves, como edema e sangramento cerebral. 

As terapias aprovadas, hoje, atuam na remoção das placas já formadas e, por isso, têm resultados limitados. Diferentemente, o levetiracetam parece impedir a produção excessiva da beta-amiloide, evitando que cause danos nos neurônios. O estudo, porém, está em fases iniciais, e ainda não há previsão de quando será clinicamente viável. Por enquanto, os cientistas da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, fizeram experimentos em modelos animais, em neurônios humanos e no tecido cerebral de pacientes de alto risco.

"Pacotinhos"

No estudo, os pesquisadores descobriram um fragmento da proteína beta-amiloide particularmente tóxico chamado AB42 acumulado dentro das vesículas sinápticas — "pacotinhos" usados pelos neurônios para se comunicarem. Quando administraram o levetiracetam, um anticonvulsivante de baixo custo, o medicamento impediu a formação das partículas nocivas pelas células cerebrais. Segundo os cientistas, caso o resultado se confirme, essa poderá ser uma estratégia preventiva da doença.

"Em termos práticos, isso aponta para um uso do levetiracetam não só para lidar com crises epilépticas em pessoas com Alzheimer, mas possivelmente para 'fechar a torneira' da produção de AB42 antes que se formem muitas placas e ocorram danos irreversíveis", explica Philipe Marques da Cunha, professor da pós-graduação em neurologia na Afya Educação Médica Belo Horizonte. "Não é uma cura, mas uma estratégia potencial de prevenção ou de retardar a progressão, agindo muito cedo no processo da doença e posteriormente nos seus sinais e sintomas", esclarece. 

Para um dos autores do estudo, Jeffrey Savas, os resultados "revelam uma nova biologia e também abrem as portas para alvos terapêuticos". Ele conta que durante o ciclo das vesículas sinápticas — um processo envolvido na base de cada pensamento, movimento, memória ou sensação —, o medicamento se une a uma proteína chamada SV2A, manobra que evita a produção dos fragmentos tóxicos. Segundo Savas, se testes futuros comprovarem a ação do levetiracetam, ele deverá ser administrado muito precocemente em pessoas de alto risco. "Não se pode tomá-lo quando já se tem demência, porque o cérebro já sofreu uma série de alterações irreversíveis e muita morte celular."

Apesar dos resultados promissores, Marques da Cunha ressalta que, para os resultados serem aplicados a pessoas, há muitos obstáculos a serem superados. "O cérebro humano é infinitamente mais complexo do que os sistemas experimentais utilizados em pesquisas. Por isso, ainda é necessário identificar a dose adequada do medicamento para que ele tenha o efeito esperado em pacientes", diz. "Além disso, não basta diminuir a produção da proteína — é fundamental provar que essa redução se traduz em melhorias reais, como menor perda de memória ou uma evolução mais lenta da doença." Outro aspecto destacado pelo especialista é que, além da beta-amiloide, o Alzheimer está associado a outras proteínas, como a tau, que não foram analisadas pela equipe de Northwestern.

Luciana Barbosa, coordenadora do serviço de Neurologia do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, também frisa a importância de não se utilizar o levetiracetam sem indicação médica — atualmente, ele é prescrito para evitar convulsões. "Precisamos de pesquisas criteriosas para que a medicação seja aplicada à prática clínica com segurança. O paciente não deve tomar a medicação de forma desnecessária, pois corre risco de efeitos adversos", lembra. A neurologista alerta, inclusive, que na apresentação disponível atualmente, o anticonvulsivante pode agravar sintomas da doença de Alzheimer, como irritabilidade e alterações de humor.



Fonte: Correio Braziliense

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Desequilíbrio de minerais no cérebro pode ajudar a explicar epilepsia infantil grave, aponta estudo


 Um estudo brasileiro acaba de lançar nova luz sobre a Síndrome de Dravet, uma forma rara e grave de epilepsia infantil que surge ainda no primeiro ano de vida. A pesquisa indica que alterações na concentração de minerais dentro das células cerebrais podem contribuir para a gravidade da doença.

O trabalho foi publicado na revista ACS Chemical Neuroscience e contou com pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). A investigação foi liderada pelos cientistas Stevens Rehen, Mariana Stelling e Simone Cardoso.

O que é a Síndrome de Dravet?

A Síndrome de Dravet é uma condição neurológica genética marcada por crises epilépticas frequentes e de difícil controle. Além das convulsões, muitas crianças apresentam atrasos no desenvolvimento cognitivo e motor, e o risco de morte precoce durante a infância ou adolescência é maior do que o observado em outras epilepsias.

Na maioria dos casos, a síndrome está associada a mutações no gene SCN1A, responsável pela produção de um canal de sódio essencial para a comunicação entre os neurônios. Quando esse canal não funciona adequadamente, o cérebro pode entrar em um estado de hiperexcitabilidade, favorecendo crises repetidas.

Atualmente a Síndrome de Dravet, não tem cura. No entanto, os tratamentos disponíveis ajudam a reduzir a frequência e a intensidade das crises, com medicamentos anticonvulsivantes e, em alguns países, o uso de canabidiol.

Como os cientistas estudaram o cérebro sem riscos aos pacientes

Para investigar melhor os mecanismos da doença, os pesquisadores adotaram uma estratégia inovadora e não invasiva. Células retiradas da urina de pacientes com Síndrome de Dravet e de pessoas sem a condição foram reprogramadas em laboratório para se tornarem células-tronco pluripotentes induzidas (iPS) — capazes de se transformar em diferentes tipos celulares, inclusive neurônios.

A partir dessas células, a equipe criou neuroesferas, pequenos aglomerados tridimensionais de células nervosas que reproduzem aspectos do desenvolvimento do cérebro humano. Esses modelos permitem observar alterações celulares da doença sem expor os pacientes a procedimentos invasivos ou à influência de medicamentos anticonvulsivantes.

Minerais em excesso dentro das células cerebrais

Uma das etapas centrais do estudo foi a análise da presença de elementos químicos dentro dessas neuroesferas. Para isso, os cientistas recorreram a uma técnica de alta precisão chamada microfluorescência de raios-X por radiação síncrotron, realizada no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas (SP).

Os resultados mostraram que as células derivadas de pacientes com Síndrome de Dravet apresentavam níveis significativamente mais elevados de potássio, cobre e zinco em comparação às células de indivíduos sem a doença. Já minerais como cálcio e ferro não apresentaram diferenças relevantes.

Segundo os pesquisadores, o excesso de potássio pode estar ligado a uma menor atividade da bomba Na⁺/K⁺ ATPase, mecanismo essencial para manter o equilíbrio elétrico dos neurônios. Esse desequilíbrio pode tornar as células ainda mais excitáveis, favorecendo as crises epilépticas.

O aumento do zinco pode estar associado ao seu acúmulo em estruturas envolvidas na transmissão de sinais entre neurônios. Já os níveis elevados de cobre podem refletir uma resposta do cérebro ao estresse oxidativo, um tipo de dano celular provocado por crises convulsivas repetidas.

“Esse estudo reforça a importância de abordagens integradas para estudar epilepsias raras. Ao combinar modelos celulares humanos com técnicas avançadas de análise química, conseguimos revelar aspectos da fisiopatologia da Síndrome de Dravet que podem, no futuro, orientar o desenvolvimento de terapias mais direcionadas”, afirma Stevens Rehen.

Mais do que identificar um gene defeituoso, a pesquisa mostra que o ambiente químico do cérebro também influencia a gravidade da doença. Esse conhecimento pode abrir caminho para novas estratégias terapêuticas que vão além do controle das crises e atuem diretamente nos mecanismos celulares envolvidos.



Fonte: Seleções

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Pequeno peptídeo aponta novo caminho para conter avanço da epilepsia

Um estudo experimental da Universidade Hebraica de Jerusalém indica que um peptídeo sintético, o TXM-CB3, pode reduzir a recorrência de crises epiléticas e atenuar danos neurológicos associados, atuando sobre processos de stress oxidativo e inflamação no cérebro. A abordagem, distinta dos medicamentos atuais que suprimem sintomas, sugere um potencial para modular a progressão da doença, especialmente com intervenção precoce.

Uma nova linha de investigação na luta contra a epilepsia está a ganhar forma nos laboratórios da Universidade Hebraica de Jerusalém. O foco recai não no sintoma mais visível – as crises –, mas numa espécie de ambiente biológico que parece alimentar a sua recorrência e, a prazo, contribuir para o agravamento da condição. A aposta reside num composto experimental minúsculo, um peptídeo batizado TXM-CB3, concebido para imitar a ação de uma proteína natural do organismo, a thioredoxina.

Esta proteína integra o sistema de defesa interno das células, ajudando a gerir o chamado stress oxidativo e a regular processos inflamatórios. São precisamente estes dois mecanismos que a ciência começa a associar fortemente não só ao desencadear de cada crise epilética, mas à forma como a doença se instala e progride, por vezes resistindo às terapias atuais. “A maioria dos tratamentos para a epilepsia concentra-se em reduzir as crises, mas o nosso objetivo era ver se poderíamos influenciar os processos subjacentes que podem conduzir a doença para a frente”, explicou o professor Tawfeeq Shekh-Ahmad, da Faculdade de Medicina, que orientou o trabalho.

A investigação, publicada na revista Redox Biology, foi conduzida principalmente pelos estudantes de doutoramento Prince Kumar Singh e Shweta Maurya, contando com a colaboração da professora Daphne Atlas, do Instituto de Ciências da Vida, que desenhou a família de peptídeos à qual pertence o TXM-CB3. A equipe partiu de modelos celulares que simulam atividade semelhante a crises, onde o composto conseguiu reduzir marcadores de dano oxidativo e modular a resposta imunitária para um perfil menos inflamatório.

O passo seguinte levou-os a testes em modelos pré-clínicos de epilepsia resistente a medicamentos, com crises recorrentes. Aí, avaliaram dois cenários cruciais. Num primeiro, a administração do TXM-CB3 logo após um evento inicial semelhante a um status epilepticus resultou num atraso no aparecimento das crises subsequentes, numa redução da sua frequência e numa melhor preservação de estruturas cerebrais ligadas à memória. Os animais tratados precocemente exibiram ainda menos comportamentos indiciadores de ansiedade e um desempenho superior em testes de memória de curto prazo.

Já quando o tratamento foi iniciado mais tarde, depois de estabelecido um ciclo de crises recorrentes, o peptídeo continuou a demonstrar capacidade para reduzir a atividade crítica ao longo do tempo. Contudo, e de forma que os investigadores consideram significativa, os défices de memória que já se haviam instalado não registraram melhorias substanciais. Esta disparidade de resultados dependendo do momento da intervenção sublinha, no entender da equipe, a importância crítica de uma abordagem terapêutica precoce. “O fato de termos observado tanto uma redução na atividade das crises como sinais de proteção cerebral nestes modelos experimentais fortalece a hipótese de desenvolver tratamentos que aproveitem as vias de proteção próprias do organismo”, comentou a professora Daphne Atlas.

A epilepsia afeta cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde, e até 40% dos casos mostram resistência aos fármacos atuais. Estes medicamentos, na sua maioria, atuam para conter a crise no momento, sem alterarem significativamente o curso da doença a longo prazo. A estratégia agora explorada é diferente: visa acalmar os sinais de stress químico e imunitário que podem estar na base da cronicidade e da progressão do quadro clínico.

É claro que estamos ainda numa fase embrionária. Os resultados, embora promissores, provêm de modelos experimentais, e um longo caminho de estudos é necessário para avaliar segurança, dosagem e eficácia em humanos. Apesar disso, a investigação traça uma direção palpável para o futuro. Aponta para a possibilidade de, um dia, se poder oferecer às pessoas com epilepsia não apenas um melhor controle das crises, mas uma terapia que possa mitigar as consequências neurológicas a longo prazo, influenciando positivamente a qualidade de vida de forma mais profunda. O cérebro, afinal, tem os seus próprios mecanismos de resiliência; a ciência tenta agora dar-lhes um empurrão.



Fonte: Health News
 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Sobrevivente de avalanche passa a ter epilepsia rara provocada por Sudoku; caso vira estudo na Alemanha

Um homem de 25 anos desenvolveu um tipo raro de epilepsia após sobreviver a uma avalanche durante uma viagem de esqui nos Alpes, em novembro de 2008. Soterrado por cerca de 15 minutos, ele sofreu hipóxia — a redução crítica de oxigênio nos tecidos — antes de ser resgatado por um amigo, que realizou manobras de reanimação cardiopulmonar. O jovem foi encaminhado a um hospital na Alemanha, onde recebeu atendimento especializado.

Nos dias seguintes ao acidente, surgiram movimentos involuntários nas pernas durante a caminhada e na boca ao falar, sinais associados a danos cerebrais provocados pela falta de oxigênio. Após a estabilização clínica, o paciente foi transferido para uma clínica de reabilitação para dar continuidade ao tratamento.

Crises desencadeadas por estímulos visuais

Durante o período de reabilitação, o paciente retomou o hábito de resolver quebra-cabeças de Sudoku, atividade que apreciava antes do acidente. Foi nesse contexto que apresentou espasmos repetidos no braço esquerdo, que cessaram imediatamente ao interromper o jogo. O padrão chamou a atenção da equipe médica, liderada pelo neurologista Berend Feddersen, da Universidade de Munique, e motivou uma investigação detalhada.

De acordo com um relatório citado pela Live Science, publicado recentemente, exames de eletroencefalograma (EEG) identificaram atividade epiléptica na região centroparietal direita do cérebro, área relacionada ao controle motor do braço esquerdo. Uma ressonância magnética convencional não revelou lesões estruturais evidentes, o que levou os médicos a recorrer a métodos mais avançados.

Exames de ressonância magnética funcional (RMf), realizados enquanto o paciente resolvia o Sudoku, mostraram ativação cerebral ampla, com intensidade acentuada no córtex centroparietal. Já imagens ponderadas por difusão indicaram redução de fibras inibitórias nessa região, o que favorecia uma hiperatividade neural capaz de desencadear convulsões. Segundo o laudo médico, a hipóxia sofrida durante a avalanche foi apontada como a causa mais provável dessa vulnerabilidade.

O diagnóstico final foi de epilepsia reflexa, condição em que crises são provocadas por estímulos específicos. No caso, tarefas que exigiam processamento visual e espacial complexo, como a visualização tridimensional envolvida no Sudoku, atuavam como gatilho. O paciente não apresentou convulsões ao ler, escrever ou fazer cálculos simples, mas atividades visuais semelhantes, como ordenar números aleatoriamente, também induziam os episódios.

Tratado com medicação antiepiléptica, o jovem permaneceu sem crises por mais de cinco anos, segundo a Live Science. A fisioterapia reduziu os movimentos involuntários residuais, e, como medida preventiva, ele passou a evitar jogos e tarefas capazes de desencadear convulsões.

Embora cerca de 3,8% da população desenvolva epilepsia ao longo da vida, apenas entre 4% e 7% dos pacientes apresentam epilepsia reflexa. A literatura médica já descreveu casos associados a jogos como Zipai, na China, e Mahjong, em Taiwan, mas não havia registros anteriores de crises provocadas especificamente por quebra-cabeças de Sudoku.

Para os especialistas, o caso ilustra como danos cerebrais causados pela falta de oxigênio podem alterar circuitos neurais e transformar atividades cotidianas em potenciais desencadeadores de crises. Também reforça a importância do atendimento médico imediato em situações de hipóxia e do acompanhamento neurológico prolongado, fundamentais para a adaptação da rotina e a qualidade de vida dos pacientes.



Fonte: O Globo 




quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Belarus desenvolve novo remédio nacional contra a epilepsia


 Cientistas de Belarus desenvolveram o medicamento Gabapentina-NAN, destinado ao tratamento da epilepsia e de outras doenças do sistema nervoso. De acordo com a BelTA, parceira da TV BRICS, o fármaco já foi lançado no mercado nacional e pode substituir medicamentos equivalentes atualmente importados.

A inovação recebeu amplo reconhecimento em nível estatal. A Academia Nacional de Ciências de Belarus incluiu o medicamento entre os dez principais resultados científicos do país em 2025, na área de pesquisas básicas e aplicadas, ressaltando sua importância para a ciência e para a saúde pública.

O desenvolvimento do remédio levou mais de quatro anos de pesquisas e testes. Segundo os especialistas, o novo produto apresenta eficácia equivalente à dos medicamentos estrangeiros, mas com um custo cerca de 50% menor, o que amplia o acesso dos pacientes ao tratamento.

Os pesquisadores destacam que a seleção adequada dos componentes, incluindo o princípio ativo e os excipientes, foi um dos maiores desafios do projeto. Embora se apresente como uma cápsula simples, o medicamento exigiu estudos aprofundados e testes rigorosos para assegurar sua qualidade, segurança e eficácia.



Fonte: Tv Brics


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