quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Epilepsia: quando uma simples distração pode esconder uma crise


 Quando se fala em epilepsia, a imagem que costuma vir à cabeça é a de uma pessoa que cai no chão, perde a consciência e apresenta movimentos involuntários pelo corpo. Mas essa é apenas uma das possíveis manifestações da doença. Em crianças, algumas crises podem ser tão discretas que acabam confundidas com distração, “ficar no mundo da lua”, desatenção ou até mesmo comportamentos considerados comuns para determinada idade.

Segundo a neurologista infantil e doutora em Ciências Mariana Krueger, essa é uma das principais questões que precisam ser compreendidas quando o assunto é epilepsia. “Epilepsia não é sinônimo de convulsão”, explica.

Uma criança pode, por exemplo, interromper repentinamente uma atividade, ficar alguns segundos olhando fixamente para um ponto e não responder quando chamada. Em outras situações, pode apresentar movimentos repetitivos da boca ou das mãos, sensações estranhas, alterações visuais, formigamentos, mudanças na fala ou episódios breves de confusão.

“Uma crise pode se manifestar apenas como alguns segundos de olhar parado e desconexão do ambiente”, explica Mariana. Também existem crises caracterizadas por movimentos rápidos, semelhantes a pequenos “sustos”, chamados de mioclonias, ou pela perda súbita do tônus muscular, que pode fazer a criança deixar um objeto cair ou até mesmo cair no chão.

Para a especialista, episódios breves, repetitivos e muito semelhantes entre si merecem atenção, principalmente quando existe alteração da consciência ou quando a pessoa não consegue explicar o que aconteceu.

Quando o “desastrado” pode estar tendo uma crise

Alguns sinais são tão discretos que podem acompanhar a criança durante anos sem que a família imagine que existe uma questão neurológica por trás deles.

Um exemplo citado por Mariana Krueger são as mioclonias, pequenos abalos musculares rápidos que podem aparecer principalmente ao despertar. Um adolescente que frequentemente deixa cair a escova de dentes, um copo ou o celular pela manhã pode simplesmente ser considerado desastrado. Em alguns casos, porém, esses episódios precisam ser investigados.

“As crises focais também podem apresentar manifestações curiosas. A pessoa pode sentir um medo repentino sem motivo aparente, ter uma sensação de déjà-vu, perceber um cheiro ou gosto estranho, sentir um desconforto no estômago que parece subir pelo corpo ou passar por alguns instantes de confusão”, destaca Mariana Krueger.

De acordo com a doutora, o sono também pode esconder sinais. Algumas pessoas apresentam crises predominantemente durante a noite e só percebem que há algo diferente porque acordam com dores musculares, ferimentos, mordedura da língua ou encontram a cama completamente desarrumada.

Mariana Kruege, diz que na infância, outro desafio é diferenciar uma crise de situações bastante comuns. Uma criança distraída geralmente consegue responder quando chamada ou tocada. Já durante algumas crises de ausência, ela pode interromper subitamente o que está fazendo, permanecer com o olhar parado por alguns segundos e não responder, retomando a atividade logo depois.

Tiques, desmaios e alterações comportamentais também podem entrar nessa investigação. “Essa diferenciação nem sempre é simples e é uma das situações mais frequentes na neuropediatria”, afirma a neurologista.

Por isso, observar o que acontece antes, durante e depois de um episódio é fundamental. “Um recurso simples pode ajudar muito: gravar um vídeo. Para Mariana, as imagens feitas pelos familiares podem ser extremamente úteis para a avaliação médica, juntamente com uma história clínica detalhada. Quando necessário, o especialista pode solicitar exames como o eletroencefalograma e, em situações específicas, o vídeo-EEG”, pontua a profissional.

Sono, escola e qualidade de vida também entram na investigação

Segundo Mariana Kruege, sono tem uma relação importante com as crises. Dormir pouco ou manter uma rotina muito irregular pode facilitar o aparecimento de crises em pessoas predispostas. Isso não significa que a falta de sono, sozinha, seja responsável por causar epilepsia, mas ela pode contribuir para reduzir o chamado limiar para ocorrência de uma crise.

A doença também pode repercutir na rotina escolar. Isso não significa, porém, que uma criança com epilepsia necessariamente terá problemas de aprendizagem ou desenvolvimento. Muitas apresentam inteligência e desempenho acadêmico normais.

Quando aparecem dificuldades de atenção ou memória, é preciso investigar diferentes fatores. As próprias crises ou descargas epilépticas podem interferir temporariamente nessas funções. O sono inadequado, ansiedade, depressão e até efeitos adversos dos medicamentos também podem influenciar o desempenho.

“Na criança, uma queda inesperada do rendimento escolar merece investigação, especialmente se vier acompanhada de episódios de desconexão, mudanças comportamentais ou regressão de habilidades”, destaca Mariana.

A profissional explica que o tratamento também precisa considerar a vida da criança como um todo. Os medicamentos anti crises podem causar efeitos como sonolência, tontura, alterações de atenção, irritabilidade e mudanças de humor, dependendo da medicação e de cada paciente.

“Por isso, controlar as crises é apenas parte do objetivo. É preciso buscar o equilíbrio entre segurança, controle da doença e qualidade de vida. “Uma criança sem crises, mas excessivamente sonolenta ou com importante prejuízo escolar provocado pelo tratamento, também precisa ter sua terapêutica reavaliada”, explica Mariana Krueger.

Quando os medicamentos não conseguem controlar adequadamente as crises, existem outras possibilidades. A epilepsia considerada resistente a medicamentos é aquela em que dois tratamentos adequadamente escolhidos, tolerados e utilizados, isoladamente ou em combinação, falharam em manter o paciente livre de crises.

Nessas situações, a avaliação em um centro especializado em epilepsia é importante. Dependendo do caso, podem ser consideradas cirurgia, dieta cetogênica e outras terapias, como técnicas de neuromodulação.

A cirurgia, ressalta a neurologista, não deve necessariamente ser encarada como uma alternativa a ser lembrada apenas depois de muitos anos de sofrimento. Quando existe indicação, a investigação especializada pode ser realizada precocemente.

“Outro ponto importante é que epilepsia não significa necessariamente uma vida cheia de restrições. Crianças e adultos devem ser estimulados a manter uma vida ativa, mas com avaliação individual dos riscos. Atividades aquáticas, por exemplo, exigem atenção especial para quem ainda apresenta crises com perda de consciência. Piscina, mar, rios e outras situações devem contar com supervisão adequada”, pontua Mariana Krueger.



Fonte: O Estado CE

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Professora participa de formação em dieta cetogênica para tratar epilepsia infantil


 A docente do curso de Nutrição da Universidade de Marília (Unimar) e nutricionista do Projeto Amor de Criança, Camila Maria de Arruda, participou de uma formação científica sobre o uso da dieta cetogênica no tratamento de crianças com epilepsia refratária. A capacitação ocorreu por meio do Keto Mentorship Program, que reuniu profissionais brasileiros e pesquisadores internacionais, e incluiu um workshop com o chef Henrique Fogaça sobre preparações adaptadas ao protocolo alimentar.

Segundo Camila, a formação permitiu a atualização sobre protocolos clínicos e estratégias de aplicação da dieta cetogênica. “Foi importante para que pudéssemos ter essa troca de experiências com pesquisadores que atuam diretamente na vanguarda da terapia cetogênica. A formação integrou fundamentos científicos, protocolos clínicos atualizados e estratégias práticas de implementação da dieta, aliando rigor acadêmico, aplicabilidade terapêutica e impacto direto na qualidade de vida das crianças atendidas”, conta.

O workshop com Henrique Fogaça teve como foco a elaboração de receitas compatíveis com as exigências da dieta cetogênica. De acordo com a docente, a atividade aproximou o conhecimento científico da rotina das famílias que precisam seguir o protocolo. “O resultado é a construção de uma ponte entre a evidência científica e a adesão real ao protocolo terapêutico, aspecto fundamental para que a dieta produza seus efeitos de forma sustentável e eficaz”, complementa Camila.

Para a coordenadora do curso de Nutrição da Unimar, Mara Silvia Foratto Marconato, a participação da docente na formação contribui para a qualificação do ensino e da assistência. “A participação da professora Camila em uma formação tão criteriosa e internacional é a expressão mais concreta do perfil que o curso de Nutrição da Unimar constrói em seus professores e, por consequência, em seus alunos. Quando um docente avança no conhecimento especializado, todo o ambiente de aprendizagem se fortalece e o impacto chega diretamente às pessoas atendidas”, comemora.

A pró-reitora de Graduação da Unimar, Fernanda Mesquita Serva, também destacou a participação da docente. “A trajetória da professora Camila nessa formação exemplifica com precisão o compromisso que a Unimar busca em seus docentes. É esse ciclo que transforma uma universidade em agente real de mudança social”, ressalta.

“Participar de uma formação tão exclusiva, ao lado de pesquisadores internacionais que são referências na área, possibilita trazer novos conhecimentos para a prática. O mais importante é transformar essa atualização em cuidado e em estratégias que possam beneficiar diretamente as crianças atendidas pelo Projeto Amor de Criança”, destaca Camila Maria de Arruda.

Criado em 2013 em parceria com o Ministério Público Federal e a Unesp, o Projeto Amor de Criança da Unimar atende atualmente mais de 200 crianças. Segundo a instituição, o projeto começou com quatro pacientes e reúne docentes, profissionais de saúde e estudantes no Hospital Beneficente Unimar.

A iniciativa oferece atendimento pediátrico multidisciplinar e inclui crianças com condições neurológicas complexas. Para a Unimar, a formação em dieta cetogênica amplia os conhecimentos disponíveis para o atendimento realizado pelo projeto.



Fonte: Marília Notícias

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Estudo aponta que anticonvulsivante usado contra epilepsia pode ajudar a frear tumor cerebral em crianças


 Um medicamento utilizado para controlar convulsões pode ter um efeito adicional contra um dos tumores cerebrais mais agressivos da infância. Pesquisadores descobriram que o levetiracetam está associado a uma maior sobrevida de crianças com glioma difuso de linha média (DMG), um tipo raro de câncer que costuma atingir estruturas centrais do sistema nervoso, como tronco cerebral, tálamo e medula espinhal. Os resultados foram publicados nesta quinta-feira (17) na revista científica Nature Medicine.

A análise retrospectiva reuniu dados de pacientes pediátricos atendidos em centros de neuro-oncologia dos Estados Unidos. Entre 119 crianças com DMG, as 15 que tinham histórico de uso de levetiracetam apresentaram sobrevida global mediana de 20,96 meses. Entre as 104 que não haviam usado o medicamento, a mediana foi de 9,92 meses.

O estudo, porém, não demonstra que o anticonvulsivante seja capaz de tratar ou curar o câncer. Como os dados clínicos analisados são retrospectivos, ou seja, avaliaram casos passados, e o número de pacientes que recebeu levetiracetam é pequeno, os próprios pesquisadores afirmam que são necessários estudos prospectivos para confirmar o possível benefício.

Como o medicamento pode agir

O levetiracetam é utilizado principalmente para prevenir e controlar crises epilépticas. A nova pesquisa investigou se ele também poderia interferir na comunicação entre neurônios e células tumorais.

Os pesquisadores partiram de evidências de que a atividade dos neurônios pode estimular o crescimento de gliomas. No caso dos gliomas difusos de linha média — que ocorrem em estruturas da linha média do sistema nervoso central, mais comumente o tronco encefálico, o tálamo ou a medula espinhal —, os cientistas observaram um papel específico das conexões mediadas pelo neurotransmissor Gaba, chamadas de sinapses GABAérgicas. Essas conexões podem produzir sinais elétricos que favorecem a proliferação das células tumorais.

Nos experimentos, o levetiracetam reduziu a transmissão desses sinais entre neurônios e células do DMG. O efeito também foi observado em modelos animais: o medicamento diminuiu a proliferação e a carga tumoral e prolongou a sobrevida de camundongos com modelos de DMG.

Os pesquisadores ressaltam que esse mecanismo parece ser diferente da forma tradicional pela qual o levetiracetam previne convulsões. O efeito contra o tumor não dependeria da proteína SV2A, principal alvo conhecido do medicamento no tratamento da epilepsia.

Efeito não foi observado em outros gliomas

O possível benefício não apareceu de forma geral entre os tumores cerebrais analisados. Em crianças com gliomas de alto grau localizados nos hemisférios cerebrais, o estudo não encontrou diferença significativa na sobrevida associada ao uso do levetiracetam.

Na análise retrospectiva, pacientes com gliomas hemisféricos que receberam o medicamento tiveram sobrevida mediana de 24 meses, contra 22,2 meses entre aqueles que não o receberam. A diferença não foi estatisticamente significativa.

Os experimentos pré-clínicos também não mostraram efeito do levetiracetam em modelos de gliomas hemisféricos de alto grau. Para os autores, isso reforça a hipótese de que o possível efeito do medicamento esteja relacionado às características específicas do DMG e às conexões entre os neurônios e esse subtipo de tumor.

Próximos passos

Os pesquisadores defendem a realização de ensaios clínicos prospectivos para verificar se o levetiracetam realmente prolonga a sobrevida de pacientes com DMG e quais grupos poderiam se beneficiar do tratamento.

O estudo também apresenta limitações importantes. Além do caráter retrospectivo da análise, a possibilidade de que diferenças entre os pacientes tenham influenciado os resultados não pode ser descartada. Os autores observam, por exemplo, que pacientes que receberam levetiracetam podem ter características biológicas diferentes daqueles que não receberam o medicamento.

Por isso, os resultados são considerados uma evidência inicial de um possível novo caminho terapêutico, e não uma comprovação de que o anticonvulsivante deva ser usado como tratamento contra o tumor.



Fonte: O Globo

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Mecanismo da epilepsia atrapalha o sono e a formação de memórias

Cientistas do Instituto Kennedy Krieger e da Johns Hopkins Medicine, nos Estados Unidos, descobriram que a consolidação da memória durante o sono depende da ação coordenada entre três regiões cerebrais e que interrupções nessas atividades podem prejudicar o processo. Segundo artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, trata-se do primeiro estudo em humanos a relacionar diretamente as interações entre o córtex orbitofrontal, o tálamo e o hipocampo à lembrança.

Os resultados da pesquisa também demonstram como os picos epilépticos podem atrapalhar a atividades nessas regiões e prejudicara formação da memória. Para os autores, o trabalho pode orientar futuras abordagens para detectar, monitorar e tratar os efeitos cognitivos associados à epilepsia.

“Ainda não entendíamos por que pacientes com epilepsia têm problemas de memória”, disse Catherine Chu, coautora do estudo, vice-presidente de neurologia do Kennedy Krieger e diretora de neurologia infantil e epilepsia pediátrica da Universidade Johns Hopkins. “Isso ajuda a preencher essa lacuna.”

Conforme Ana Paula Gonçalves, presidente da Liga Brasileira de Epilepsia, neurologista e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pacientes com epilepsia apresentam distúrbios da atividade elétrica cerebral. “Há um grupo de neurônios hiperecitáveis que trabalham mais e de forma desordenada, provocando um comportamento inadequado. A pessoa epiléptica apresenta descargas cerebrais, como se fossem faíscas, provocando um descanso fragmentado.”

Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Américas, destaca que embora o sono não apareça formalmente entre os fatores de risco potencialmente modificáveis para o desenvolvimento de demência, ele pode estar indiretamente relacionado a vários deles, como obesidade e hipertensão, além de participar do mecanismo de consolidação das lembranças. “Há bastante tempo, estudos com animais e seres humanos demonstram que a privação desse descanso prejudica a aprendizagem. O diferencial dessa nova pesquisa é apresentar uma evidência neurofisiológica, demonstrando uma associação entre a atividade elétrica específica de determinadas áreas do cérebro e o desempenho da memória.”

Para o estudo, os pesquisadores registraram a atividade em três regiões do cérebro de pacientes com epilepsia. Eles analisaram como padrões rítmicos de atividade elétrica, conhecidos como oscilações neurais, fusos do sono e ondulações hipocampais, se coordenavam nessas áreas enquanto os voluntários dormiam.

Descargas elétricas

Ao comparar os padrões observados com medidas de desempenho da memória, os cientistas determinaram que uma coordenação mais forte das atividades no córtex orbitofrontal, tálamo e hipocampo estava ligada a uma melhor memória. No entanto, quando ocorriam descargas epilépticas, a ação era interrompida e a consolidação da lembrança prejudicada.



Fonte: Correio Brazilienze
 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Como a IA democratiza o acesso ao diagnóstico da epilepsia


 O eletroencefalograma (EEG) é um dos principais exames utilizados para avaliar a atividade elétrica cerebral e desempenha papel fundamental no diagnóstico de doenças neurológicas, especialmente da epilepsia. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 50 milhões de pessoas convivem com a epilepsia em todo o mundo, o que evidencia a importância de ampliar o acesso a diagnósticos rápidos e precisos. A interpretação correta do exame influencia diretamente a definição da conduta terapêutica e o acompanhamento dos pacientes, mas a escassez de médicos neurofisiologistas em diversas regiões do Brasil dificulta o acesso a laudos especializados e amplia os desafios para a assistência em saúde.

Essa desigualdade faz com que muitos exames realizados em cidades menores ou regiões mais afastadas sejam interpretados por profissionais que, embora experientes em suas áreas de atuação, não possuem formação específica em neurofisiologia clínica. O resultado pode ser um aumento no risco de erros de interpretação, atrasos no diagnóstico e até escolhas terapêuticas inadequadas, evidenciando a necessidade de encontrar formas de levar conhecimento especializado a locais onde ele ainda não consegue chegar.

É justamente nesse cenário que a inteligência artificial vem despertando o interesse da comunidade científica. Muito mais do que substituir médicos, ela surge como uma ferramenta capaz de ampliar o alcance da expertise dos especialistas, oferecendo suporte à interpretação dos exames e ajudando a reduzir desigualdades de acesso. Trata-se de uma discussão que ganhou força recentemente, mas que vem sendo construída há anos por universidades, hospitais e centros de pesquisa ao redor do mundo.

As primeiras iniciativas buscavam automatizar tarefas relativamente simples, como identificar se um eletroencefalograma era normal ou apresentava alterações. Embora os resultados fossem animadores, ainda havia diferenças importantes quando comparados à análise realizada por neurofisiologistas experientes, especialmente em aspectos como sensibilidade, especificidade e precisão diagnóstica. Com a evolução das técnicas de aprendizado profundo (deep learning) e das redes neurais profundas (deep neural networks), porém, esse cenário mudou rapidamente e os algoritmos passaram a reconhecer padrões muito mais complexos da atividade cerebral, aproximando seu desempenho daquele obtido por especialistas.

Esse cenário foi possível graças à construção de grandes bancos de dados compostos por milhares de exames provenientes de diferentes hospitais, regiões e perfis de pacientes, permitindo que os modelos fossem treinados em situações clínicas bastante diversas. Pesquisadores da Harvard Medical School defendem que essa diversidade é um dos principais fatores para o desenvolvimento de sistemas realmente confiáveis, capazes de manter um bom desempenho em diferentes contextos clínicos sem abrir mão da proteção dos dados e da anonimização das informações dos pacientes.

Em um estudo multicêntrico publicado na JAMA Neurology, pesquisadores liderados por Sandor e colaboradores desenvolveram um sistema de inteligência artificial treinado com mais de 30 mil eletroencefalogramas previamente analisados por 17 especialistas. O modelo conseguiu diferenciar alterações epileptiformes focais e generalizadas, além de alterações não epileptiformes, alcançando um desempenho semelhante ao dos especialistas humanos após ser validado em diferentes bases de dados, demonstrando que a inteligência artificial vem deixando de ser apenas uma promessa para se tornar uma ferramenta concreta de apoio ao diagnóstico.

Com isso, a discussão mais relevante não seja se a inteligência artificial conseguirá interpretar um eletroencefalograma sozinha, mas como ela pode contribuir para que mais pessoas tenham acesso a um diagnóstico qualificado. Em um país onde a falta de especialistas ainda representa uma barreira para muitos pacientes, toda tecnologia capaz de aproximar conhecimento, reduzir distâncias e tornar o atendimento mais eficiente merece ser encarada como uma aliada da assistência, desde que seja construída sobre evidências científicas consistentes e utilizada de forma ética e responsável.

Isso significa compreender que o papel da inteligência artificial não é substituir o neurofisiologista, mas potencializar sua atuação. Ao automatizar etapas da análise, destacar padrões relevantes e organizar o fluxo de exames conforme sua complexidade, essas ferramentas permitem que o especialista concentre seu tempo naquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir plenamente: integrar os achados do exame com a história clínica, os sintomas, o contexto de cada paciente e a experiência médica acumulada ao longo dos anos.

À medida que essas soluções continuam evoluindo e acumulando validações científicas, aumenta também a possibilidade de reduzir desigualdades regionais, fortalecer centros de referência e ampliar o acesso da população a diagnósticos mais rápidos e seguros. O futuro da inteligência artificial aplicada ao eletroencefalograma não passa pela substituição do médico, mas pela construção de uma prática clínica mais eficiente, colaborativa e acessível, em que tecnologia e conhecimento humano atuam lado a lado para oferecer um cuidado cada vez mais qualificado.



Fonte: Medicina S/A