quinta-feira, 16 de julho de 2026

Tecnologias digitais ampliam acompanhamento clínico e transformam cuidado de pessoas com epilepsia


 O avanço das tecnologias digitais começa a redefinir a forma como pessoas que vivem com epilepsia são acompanhadas ao longo do tratamento, especialmente por meio de aplicativos e plataformas que permitem registrar crises, organizar informações clínicas e gerar dados contínuos entre as consultas médicas.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 50 milhões de pessoas vivem com epilepsia no mundo, sendo aproximadamente 3 milhões no Brasil, cenário que reforça a necessidade de estratégias capazes de qualificar o monitoramento da doença fora do ambiente hospitalar. A digitalização do cuidado surge como resposta a um desafio histórico da neurologia, que envolve a dificuldade de reunir informações confiáveis sobre frequência, duração e possíveis gatilhos das crises, fatores essenciais para decisões terapêuticas mais precisas.

Para a Dra. Kamylla Thiago de Almeida, médica neurofisiologista clínica especializada em epilepsia e cofundadora da ICTAL, o uso de registros estruturados representa uma mudança relevante na relação entre paciente e médico. “Durante muito tempo, o acompanhamento dependeu quase exclusivamente da memória do paciente ou de anotações informais, o que limita a compreensão da evolução clínica. Quando os dados passam a ser registrados de forma organizada e contínua, o neurologista consegue identificar padrões e ajustar o tratamento com maior segurança”, afirma a especialista, que atua tanto no sistema público quanto privado e acompanha de perto os desafios enfrentados por pacientes e familiares na gestão das informações sobre crises.

O movimento acompanha uma tendência mais ampla da saúde digital, marcada pelo crescimento de soluções que integram inteligência artificial à análise de exames neurológicos, incluindo o eletroencefalograma, tema investigado em estudos científicos internacionais publicados entre 2023 e 2024. Plataformas capazes de padronizar dados clínicos também ampliam o debate sobre autonomia do paciente e medicina baseada em evidências, ao mesmo tempo em que levantam discussões sobre privacidade, segurança da informação e acesso equitativo às tecnologias. Iniciativas brasileiras como o aplicativo Diário de Crises da ICTAL exemplificam essa transformação ao buscar aproximar pacientes e especialistas por meio de dados organizados que facilitam a comunicação clínica e contribuem para decisões médicas mais contextualizadas.

Nesse cenário, a especialista avalia que a digitalização do acompanhamento pode alterar de forma estrutural o cuidado neurológico nos próximos anos. “A tecnologia não substitui o olhar clínico, mas amplia a capacidade de compreender o cotidiano do paciente entre as consultas. Quando conseguimos transformar experiências individuais em dados clínicos consistentes, abrimos caminho para tratamentos mais personalizados e para uma participação mais ativa da pessoa com epilepsia no próprio cuidado”, diz Dra. Kamylla, destacando que o desafio agora envolve ampliar o acesso às ferramentas digitais e garantir que a inovação avance junto com critérios éticos e clínicos sólidos.



Fonte: Saúde Digital News

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Epilepsia e neuronutrição


 O que chegou como metáfora na vida de Gustavo Corrêa, 59, ganhou sentido literal pela causa do filho. Quando João Paulo tinha 19 anos passou a ter crises de epilepsia, e com fé Gustavo assumiu o compromisso de usar seu conhecimento para ajudar o filho a viver essa “maratona”.

Nutricionista com formação em neurociências, ele se tornou especialista em epilepsia de difícil controle. “Nada se compara a ver um filho convulsionando, nada. Houve momentos em que João Paulo precisou de internação em UTI. E ali eu aprendi o que é impotência de verdade”, afirmou.

João Paulo foi diagnosticado com epilepsia refratária e chegou a ter 10 crises por mês. Na época Gustavo atuava como empresário do ramo da gastronomia e chef de cozinha. Juntando a experiência e formação ele conseguiu fazer com que alimentação estratégica mudasse a saúde do filho.

Epilepsia, Direitos Já”

A corrida entrou na vida de Gustavo por meio de um gesto. Para ele, as famílias que convivem com epilepsia correm maratonas diárias. São percursos longos e invisíveis aos olhos da maioria. Então decidiu que 42 quilômetros teriam nome e causa: a “Maratona pela Epilepsia”. “Treinar para uma maratona ensina humildade. Você descobre que o corpo tem limites, que a pressa cobra caro e a consistência tem um peso enorme”, disse.

Para Gustavo, a corrida foi fundamental em meio à instabilidade emocional. Ela deu disciplina quando, por dentro, estava bagunçado. Estampado com a frase “Epilepsia, Direitos Já” na camisa quando está correndo, Gustavo Corrêa carrega o lema como quem se recusa ao silêncio para dizer que milhões de pessoas vivem uma condição neurológica importante, mas ainda permanecem invisíveis para boa parte da sociedade.

“Essa bandeira fala de acesso a diagnóstico precoce, tratamento digno, centros especializados, medicações, cirurgias quando necessárias, acolhimento escolar, oportunidades de trabalho e respeito. Fala também dos direitos de uma mãe dormir sem medo, de uma criança frequentar a escola sem preconceito e de uma família sonhar”, afirmou.



Fonte: ES Hoje

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Edição de variante elimina epilepsia hereditária em ratos


  Pela primeira vez no mundo, uma equipe de pesquisa da Universidade de Zurique, na Suíça, tratou com sucesso camundongos portadores de uma forma hereditária de epilepsia. Os cientistas utilizaram edição genética para corrigir o DNA defeituoso diretamente nas células cerebrais dos animais, o que reduziu as convulsões induzidas pela febre e melhorou significativamente as taxas de sobrevivência. Segundo os cientistas, a abordagem abre caminho para futuro tratamento da enfermidade, em vez de apenas controlar seus sintomas.

A epilepsia pode ter muitas causas. Quando é genética, o culpado pode ser uma mutação em um gene chamado SCN1A, que carrega o código para um canal de sódio nas células nervosas e desempenha um papel fundamental na transmissão de sinais elétricos. Esses neurônios normalmente atuam como freios e, quando falham, as redes neurais tornam-se hiperativas, desencadeando crises epilépticas.

Certas mutações no gene SCN1A causam uma forma hereditária de epilepsia conhecida como GEFS . Pessoas com a variante sofrem de convulsões febris, que geralmente começam na primeira infância. Usando um modelo de rato com GEFS , os cientistas demonstraram pela primeira vez que a edição genética pode corrigir essa mutação diretamente no cérebro. "O tratamento melhorou a comunicação entre as células nervosas, reduziu significativamente a frequência de convulsões febris e aumentou a sobrevida dos animais", afirma Lucas Kissling, pesquisador de pós-doutorado e coautor principal do estudo.

Os pesquisadores adotaram uma nova abordagem. "Em vez de tratar as consequências da mutação, queríamos corrigir o erro diretamente na sequência do gene", explica Kissling. Para isso, a equipe aplicou um método de edição genética chamado edição primária. Essa técnica se baseia na ferramenta CRISPR/Cas e permite que erros genômicos isolados sejam corrigidos com extrema precisão, sem a necessidade de romper completamente o DNA. 

A abordagem é promissora devido à preservação dos mecanismos naturais de regulação gênica do organismo. Em vez de inserir uma cópia extra do gene, como nas terapias gênicas convencionais, ela corrige a sequência defeituosa diretamente na sua origem. "Embora esses resultados ainda sejam pré-clínicos, obtidos em um modelo murino, eles abrem novas perspectivas, apenas para o tratamento da epilepsia, mas, potencialmente, para outras doenças neurológicas causadas por uma única mutação genética", afirma Kissling.



Fonte: Correio Braziliense

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Projeto garante dieta cetogênica pelo SUS a pacientes com epilepsia resistente a medicamentos


  Projeto de Lei 532/26, do deputado Dr. Jaziel (PL-CE), assegura a oferta de dieta cetogênica pelo Sistema Único de Saúde (SUS) como estratégia de tratamento para pacientes com epilepsia refratária, também chamada de resistente a medicamentos ou de difícil controle. O projeto está em análise na Câmara dos Deputados.

A dieta cetogênica é um tratamento nutricional que envolve o consumo de alimentos ricos em gordura (alto teor lipídico), ingestão controlada de proteínas e restrição de carboidratos. Ela pode ajudar a reduzir a frequência e a intensidade das crises epilépticas.

A epilepsia refratária é caracterizada por crises epilépticas que persistem mesmo após o uso de dois ou mais medicamentos. A condição pode causar crises recorrentes, prejuízos cognitivos e funcionais e impacto nas relações sociais.

Para o autor da proposta, o projeto busca suprir a lacuna normativa e estabelecer uma diretriz nacional que permita a incorporação regulada e segura do tratamento.

“Apesar desse reconhecimento técnico, a ausência de previsão normativa nacional que assegure acesso estruturado a essa terapia no âmbito do Sistema Único de Saúde gera desigualdade regional e impede a efetiva universalização do tratamento, sobretudo para famílias em situação de vulnerabilidade econômica”, afirma o parlamentar.

Garantia e prioridade de acesso

O acesso à dieta cetogênica dependerá de avaliação clínica multiprofissional e de prescrição médica. A proposta também prevê acompanhamento nutricional contínuo, monitoramento clínico e laboratorial, orientação familiar e educacional e fornecimento de insumos necessários à terapia.

Crianças e adolescentes, pacientes com epilepsia resistente a medicamentos e com síndromes epilépticas reconhecidas em protocolos clínicos nacionais terão prioridade de acesso ao serviço.

Conforme a proposta, caberá ao Ministério da Saúde definir a elegibilidade clínica, os protocolos terapêuticos, os padrões de financiamento, a habilitação de centros de referência e a capacitação de equipes multiprofissionais.

Próximas etapas

O projeto, que tramita em caráter conclusivo, deve ser analisado pelas Comissões de Saúde; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Para virar lei, o projeto precisa ser aprovado pelos deputados e pelos senadores.



Fonte: Agência Câmara de Notícias

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Células humanas em laboratório reproduzem gravidade de epilepsia rara


 Uma pesquisa brasileira acaba de demonstrar que é possível reproduzir, em laboratório, a gravidade de uma doença neurológica rara usando células humanas dos próprios pacientes, sem a necessidade de testes em animais. O estudo, publicado no Journal of Neurochemistry e conduzido por cientistas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), utilizou neuroesferas 3D para investigar a síndrome de Dravet, uma forma grave de epilepsia genética que surge ainda na infância.

Os resultados reforçam uma mudança global na ciência biomédica: a substituição de modelos animais por abordagens mais precisas, personalizadas e éticas. Em março de 2026, o Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, publicou uma diretriz preliminar incentivando o uso dessas novas tecnologias, conhecidas como Novas Abordagens Metodológicas (NAMs).

As NAMs reúnem tecnologias como culturas celulares humanas, organoides tridimensionais e simulações computacionais. Diferentemente dos modelos animais, essas abordagens conseguem reproduzir com maior fidelidade o funcionamento do organismo humano, além de reduzir questões éticas e acelerar o desenvolvimento de medicamentos.

No Brasil, esse movimento também avança. Desde 2025, testes em animais para cosméticos, produtos de higiene pessoal e perfumes estão proibidos, consolidando a adoção de métodos alternativos nesses setores. Ok

Do laboratório ao paciente: células da urina viram “mini-cérebros”

No estudo, os pesquisadores coletaram células da urina de três pacientes com diferentes níveis de gravidade da síndrome de Dravet. A partir delas, criaram neuroesferas 3D, pequenos agrupamentos de células nervosas em desenvolvimento que simulam etapas iniciais da formação do cérebro humano.

Esses modelos permitiram observar, em laboratório, como a doença se manifesta em cada indivíduo, preservando características genéticas e moleculares específicas.

Marília Zaluar, coordenadora do estudo e pesquisadora do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que os cientistas utilizaram células dos próprios pacientes para gerar neuroesferas, modelos tridimensionais que reproduzem aspectos iniciais do cérebro humano: ‘Ao analisar essas estruturas, identificamos diferenças moleculares que acompanham a gravidade clínica da doença, o que ajuda a entender por que a síndrome de Dravet se manifesta de formas tão distintas e aponta caminhos para abordagens mais personalizadas’, afirma.

A gravidade clínica dos pacientes foi medida por meio da escala DANCE, que avalia cognição, comportamento, habilidades motoras e impacto na vida cotidiana. Os resultados variaram de 31% (quadro leve) a 82% (quadro grave), com um dos pacientes apresentando quociente intelectual inferior a 20.

Ao analisar as neuroesferas, os cientistas identificaram 770 proteínas com diferenças significativas entre os pacientes. O padrão observado foi claro: quanto mais grave a condição clínica, mais comprometido estava o funcionamento celular.

Nos casos mais leves, as células mostraram maior atividade em processos ligados à comunicação entre neurônios e à formação de conexões cerebrais. Já no paciente com quadro mais severo, houve sinais de baixa produção de energia e aumento de mecanismos de estresse celular, alterações diretamente associadas à progressão da doença.

Para os pesquisadores, o avanço vai além da compreensão da doença. A tecnologia pode se tornar uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento de novos tratamentos.

Stevens Rehen, pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da UFRJ, explica que uma possível evolução dessa plataforma será a triagem de novos medicamentos: “Ao reproduzir os aspectos moleculares associados a diferentes graus da síndrome de Dravet nos modelos celulares de cada paciente, poderemos testar respostas a terapias de forma mais precisa, reduzindo o uso de animais e fortalecendo os estudos clínicos”, afirma.

A síndrome de Dravet é causada, na maioria dos casos, por mutações no gene SCN1A, essencial para a atividade elétrica dos neurônios. Além das crises epilépticas severas, a doença pode levar a déficits cognitivos, dificuldades motoras e perda de autonomia.

Por apresentar grande variação entre pacientes, é considerada um desafio para a medicina. Nesse contexto, modelos personalizados como as neuroesferas 3D representam um avanço decisivo, permitindo classificar melhor os casos e testar abordagens terapêuticas mais direcionadas.

Os resultados mostram, na prática, o potencial das Novas Abordagens Metodológicas para transformar a pesquisa biomédica. Em doenças neurológicas complexas, esses modelos permitem observar alterações celulares com um nível de detalhe dificilmente alcançado por métodos convencionais.

Mais do que ampliar o conhecimento sobre uma epilepsia rara, o estudo aponta para um novo paradigma científico, em que o uso de células humanas substitui modelos animais, tornando a pesquisa mais fiel à biologia humana, mais eficiente no desenvolvimento de terapias e mais alinhada às demandas éticas contemporâneas.



Fonte: Medicina S/A