Segundo a neurologista infantil e doutora em Ciências Mariana Krueger, essa é uma das principais questões que precisam ser compreendidas quando o assunto é epilepsia. “Epilepsia não é sinônimo de convulsão”, explica.
Uma criança pode, por exemplo, interromper repentinamente uma atividade, ficar alguns segundos olhando fixamente para um ponto e não responder quando chamada. Em outras situações, pode apresentar movimentos repetitivos da boca ou das mãos, sensações estranhas, alterações visuais, formigamentos, mudanças na fala ou episódios breves de confusão.
“Uma crise pode se manifestar apenas como alguns segundos de olhar parado e desconexão do ambiente”, explica Mariana. Também existem crises caracterizadas por movimentos rápidos, semelhantes a pequenos “sustos”, chamados de mioclonias, ou pela perda súbita do tônus muscular, que pode fazer a criança deixar um objeto cair ou até mesmo cair no chão.
Para a especialista, episódios breves, repetitivos e muito semelhantes entre si merecem atenção, principalmente quando existe alteração da consciência ou quando a pessoa não consegue explicar o que aconteceu.
Quando o “desastrado” pode estar tendo uma crise
Alguns sinais são tão discretos que podem acompanhar a criança durante anos sem que a família imagine que existe uma questão neurológica por trás deles.
Um exemplo citado por Mariana Krueger são as mioclonias, pequenos abalos musculares rápidos que podem aparecer principalmente ao despertar. Um adolescente que frequentemente deixa cair a escova de dentes, um copo ou o celular pela manhã pode simplesmente ser considerado desastrado. Em alguns casos, porém, esses episódios precisam ser investigados.
“As crises focais também podem apresentar manifestações curiosas. A pessoa pode sentir um medo repentino sem motivo aparente, ter uma sensação de déjà-vu, perceber um cheiro ou gosto estranho, sentir um desconforto no estômago que parece subir pelo corpo ou passar por alguns instantes de confusão”, destaca Mariana Krueger.
De acordo com a doutora, o sono também pode esconder sinais. Algumas pessoas apresentam crises predominantemente durante a noite e só percebem que há algo diferente porque acordam com dores musculares, ferimentos, mordedura da língua ou encontram a cama completamente desarrumada.
Mariana Kruege, diz que na infância, outro desafio é diferenciar uma crise de situações bastante comuns. Uma criança distraída geralmente consegue responder quando chamada ou tocada. Já durante algumas crises de ausência, ela pode interromper subitamente o que está fazendo, permanecer com o olhar parado por alguns segundos e não responder, retomando a atividade logo depois.
Tiques, desmaios e alterações comportamentais também podem entrar nessa investigação. “Essa diferenciação nem sempre é simples e é uma das situações mais frequentes na neuropediatria”, afirma a neurologista.
Por isso, observar o que acontece antes, durante e depois de um episódio é fundamental. “Um recurso simples pode ajudar muito: gravar um vídeo. Para Mariana, as imagens feitas pelos familiares podem ser extremamente úteis para a avaliação médica, juntamente com uma história clínica detalhada. Quando necessário, o especialista pode solicitar exames como o eletroencefalograma e, em situações específicas, o vídeo-EEG”, pontua a profissional.
Sono, escola e qualidade de vida também entram na investigação
Segundo Mariana Kruege, sono tem uma relação importante com as crises. Dormir pouco ou manter uma rotina muito irregular pode facilitar o aparecimento de crises em pessoas predispostas. Isso não significa que a falta de sono, sozinha, seja responsável por causar epilepsia, mas ela pode contribuir para reduzir o chamado limiar para ocorrência de uma crise.
A doença também pode repercutir na rotina escolar. Isso não significa, porém, que uma criança com epilepsia necessariamente terá problemas de aprendizagem ou desenvolvimento. Muitas apresentam inteligência e desempenho acadêmico normais.
Quando aparecem dificuldades de atenção ou memória, é preciso investigar diferentes fatores. As próprias crises ou descargas epilépticas podem interferir temporariamente nessas funções. O sono inadequado, ansiedade, depressão e até efeitos adversos dos medicamentos também podem influenciar o desempenho.
“Na criança, uma queda inesperada do rendimento escolar merece investigação, especialmente se vier acompanhada de episódios de desconexão, mudanças comportamentais ou regressão de habilidades”, destaca Mariana.
A profissional explica que o tratamento também precisa considerar a vida da criança como um todo. Os medicamentos anti crises podem causar efeitos como sonolência, tontura, alterações de atenção, irritabilidade e mudanças de humor, dependendo da medicação e de cada paciente.
“Por isso, controlar as crises é apenas parte do objetivo. É preciso buscar o equilíbrio entre segurança, controle da doença e qualidade de vida. “Uma criança sem crises, mas excessivamente sonolenta ou com importante prejuízo escolar provocado pelo tratamento, também precisa ter sua terapêutica reavaliada”, explica Mariana Krueger.
Quando os medicamentos não conseguem controlar adequadamente as crises, existem outras possibilidades. A epilepsia considerada resistente a medicamentos é aquela em que dois tratamentos adequadamente escolhidos, tolerados e utilizados, isoladamente ou em combinação, falharam em manter o paciente livre de crises.
Nessas situações, a avaliação em um centro especializado em epilepsia é importante. Dependendo do caso, podem ser consideradas cirurgia, dieta cetogênica e outras terapias, como técnicas de neuromodulação.
A cirurgia, ressalta a neurologista, não deve necessariamente ser encarada como uma alternativa a ser lembrada apenas depois de muitos anos de sofrimento. Quando existe indicação, a investigação especializada pode ser realizada precocemente.
“Outro ponto importante é que epilepsia não significa necessariamente uma vida cheia de restrições. Crianças e adultos devem ser estimulados a manter uma vida ativa, mas com avaliação individual dos riscos. Atividades aquáticas, por exemplo, exigem atenção especial para quem ainda apresenta crises com perda de consciência. Piscina, mar, rios e outras situações devem contar com supervisão adequada”, pontua Mariana Krueger.
Fonte: O Estado CE




