quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Mecanismo da epilepsia atrapalha o sono e a formação de memórias

Cientistas do Instituto Kennedy Krieger e da Johns Hopkins Medicine, nos Estados Unidos, descobriram que a consolidação da memória durante o sono depende da ação coordenada entre três regiões cerebrais e que interrupções nessas atividades podem prejudicar o processo. Segundo artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, trata-se do primeiro estudo em humanos a relacionar diretamente as interações entre o córtex orbitofrontal, o tálamo e o hipocampo à lembrança.

Os resultados da pesquisa também demonstram como os picos epilépticos podem atrapalhar a atividades nessas regiões e prejudicara formação da memória. Para os autores, o trabalho pode orientar futuras abordagens para detectar, monitorar e tratar os efeitos cognitivos associados à epilepsia.

“Ainda não entendíamos por que pacientes com epilepsia têm problemas de memória”, disse Catherine Chu, coautora do estudo, vice-presidente de neurologia do Kennedy Krieger e diretora de neurologia infantil e epilepsia pediátrica da Universidade Johns Hopkins. “Isso ajuda a preencher essa lacuna.”

Conforme Ana Paula Gonçalves, presidente da Liga Brasileira de Epilepsia, neurologista e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pacientes com epilepsia apresentam distúrbios da atividade elétrica cerebral. “Há um grupo de neurônios hiperecitáveis que trabalham mais e de forma desordenada, provocando um comportamento inadequado. A pessoa epiléptica apresenta descargas cerebrais, como se fossem faíscas, provocando um descanso fragmentado.”

Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Américas, destaca que embora o sono não apareça formalmente entre os fatores de risco potencialmente modificáveis para o desenvolvimento de demência, ele pode estar indiretamente relacionado a vários deles, como obesidade e hipertensão, além de participar do mecanismo de consolidação das lembranças. “Há bastante tempo, estudos com animais e seres humanos demonstram que a privação desse descanso prejudica a aprendizagem. O diferencial dessa nova pesquisa é apresentar uma evidência neurofisiológica, demonstrando uma associação entre a atividade elétrica específica de determinadas áreas do cérebro e o desempenho da memória.”

Para o estudo, os pesquisadores registraram a atividade em três regiões do cérebro de pacientes com epilepsia. Eles analisaram como padrões rítmicos de atividade elétrica, conhecidos como oscilações neurais, fusos do sono e ondulações hipocampais, se coordenavam nessas áreas enquanto os voluntários dormiam.

Descargas elétricas

Ao comparar os padrões observados com medidas de desempenho da memória, os cientistas determinaram que uma coordenação mais forte das atividades no córtex orbitofrontal, tálamo e hipocampo estava ligada a uma melhor memória. No entanto, quando ocorriam descargas epilépticas, a ação era interrompida e a consolidação da lembrança prejudicada.



Fonte: Correio Brazilienze
 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Como a IA democratiza o acesso ao diagnóstico da epilepsia


 O eletroencefalograma (EEG) é um dos principais exames utilizados para avaliar a atividade elétrica cerebral e desempenha papel fundamental no diagnóstico de doenças neurológicas, especialmente da epilepsia. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 50 milhões de pessoas convivem com a epilepsia em todo o mundo, o que evidencia a importância de ampliar o acesso a diagnósticos rápidos e precisos. A interpretação correta do exame influencia diretamente a definição da conduta terapêutica e o acompanhamento dos pacientes, mas a escassez de médicos neurofisiologistas em diversas regiões do Brasil dificulta o acesso a laudos especializados e amplia os desafios para a assistência em saúde.

Essa desigualdade faz com que muitos exames realizados em cidades menores ou regiões mais afastadas sejam interpretados por profissionais que, embora experientes em suas áreas de atuação, não possuem formação específica em neurofisiologia clínica. O resultado pode ser um aumento no risco de erros de interpretação, atrasos no diagnóstico e até escolhas terapêuticas inadequadas, evidenciando a necessidade de encontrar formas de levar conhecimento especializado a locais onde ele ainda não consegue chegar.

É justamente nesse cenário que a inteligência artificial vem despertando o interesse da comunidade científica. Muito mais do que substituir médicos, ela surge como uma ferramenta capaz de ampliar o alcance da expertise dos especialistas, oferecendo suporte à interpretação dos exames e ajudando a reduzir desigualdades de acesso. Trata-se de uma discussão que ganhou força recentemente, mas que vem sendo construída há anos por universidades, hospitais e centros de pesquisa ao redor do mundo.

As primeiras iniciativas buscavam automatizar tarefas relativamente simples, como identificar se um eletroencefalograma era normal ou apresentava alterações. Embora os resultados fossem animadores, ainda havia diferenças importantes quando comparados à análise realizada por neurofisiologistas experientes, especialmente em aspectos como sensibilidade, especificidade e precisão diagnóstica. Com a evolução das técnicas de aprendizado profundo (deep learning) e das redes neurais profundas (deep neural networks), porém, esse cenário mudou rapidamente e os algoritmos passaram a reconhecer padrões muito mais complexos da atividade cerebral, aproximando seu desempenho daquele obtido por especialistas.

Esse cenário foi possível graças à construção de grandes bancos de dados compostos por milhares de exames provenientes de diferentes hospitais, regiões e perfis de pacientes, permitindo que os modelos fossem treinados em situações clínicas bastante diversas. Pesquisadores da Harvard Medical School defendem que essa diversidade é um dos principais fatores para o desenvolvimento de sistemas realmente confiáveis, capazes de manter um bom desempenho em diferentes contextos clínicos sem abrir mão da proteção dos dados e da anonimização das informações dos pacientes.

Em um estudo multicêntrico publicado na JAMA Neurology, pesquisadores liderados por Sandor e colaboradores desenvolveram um sistema de inteligência artificial treinado com mais de 30 mil eletroencefalogramas previamente analisados por 17 especialistas. O modelo conseguiu diferenciar alterações epileptiformes focais e generalizadas, além de alterações não epileptiformes, alcançando um desempenho semelhante ao dos especialistas humanos após ser validado em diferentes bases de dados, demonstrando que a inteligência artificial vem deixando de ser apenas uma promessa para se tornar uma ferramenta concreta de apoio ao diagnóstico.

Com isso, a discussão mais relevante não seja se a inteligência artificial conseguirá interpretar um eletroencefalograma sozinha, mas como ela pode contribuir para que mais pessoas tenham acesso a um diagnóstico qualificado. Em um país onde a falta de especialistas ainda representa uma barreira para muitos pacientes, toda tecnologia capaz de aproximar conhecimento, reduzir distâncias e tornar o atendimento mais eficiente merece ser encarada como uma aliada da assistência, desde que seja construída sobre evidências científicas consistentes e utilizada de forma ética e responsável.

Isso significa compreender que o papel da inteligência artificial não é substituir o neurofisiologista, mas potencializar sua atuação. Ao automatizar etapas da análise, destacar padrões relevantes e organizar o fluxo de exames conforme sua complexidade, essas ferramentas permitem que o especialista concentre seu tempo naquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir plenamente: integrar os achados do exame com a história clínica, os sintomas, o contexto de cada paciente e a experiência médica acumulada ao longo dos anos.

À medida que essas soluções continuam evoluindo e acumulando validações científicas, aumenta também a possibilidade de reduzir desigualdades regionais, fortalecer centros de referência e ampliar o acesso da população a diagnósticos mais rápidos e seguros. O futuro da inteligência artificial aplicada ao eletroencefalograma não passa pela substituição do médico, mas pela construção de uma prática clínica mais eficiente, colaborativa e acessível, em que tecnologia e conhecimento humano atuam lado a lado para oferecer um cuidado cada vez mais qualificado.



Fonte: Medicina S/A

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

AVC e epilepsia são tema de palestra promovida pela Vigilância em Saúde


 A informação também é uma importante aliada da saúde. Com o objetivo de orientar a comunidade, esclarecer dúvidas e chamar a atenção para a importância da prevenção e do reconhecimento dos sinais de emergência, a Vigilância em Saúde de Lagoa Vermelha promoveu, na manhã desta quinta-feira, 27 de agosto, uma palestra aberta à população sobre Acidente Vascular Cerebral (AVC) e Epilepsia.

A atividade foi conduzida pelo médico neurologista Dr. Jefferson Borges, que apresentou informações sobre as duas condições, abordando desde os fatores relacionados ao desenvolvimento das doenças até os principais cuidados necessários para a prevenção, o acompanhamento e o atendimento adequado em situações de emergência.

Durante o encontro, um dos temas de destaque foi o AVC, uma condição que exige atenção imediata. O reconhecimento rápido dos sinais pode ser decisivo para que a pessoa receba atendimento médico o mais cedo possível, reduzindo riscos e possíveis sequelas. Alterações repentinas na fala, perda de força ou sensibilidade em um dos lados do corpo, dificuldade para movimentar braços ou pernas, desvio da boca, confusão e outros sintomas súbitos são sinais que devem ser levados a sério.

A palestra também trouxe orientações sobre os cuidados diante de uma crise epiléptica. Além de ampliar o conhecimento sobre a condição, o encontro buscou combater informações incorretas e reforçar a importância de saber como agir de maneira segura até a chegada do atendimento especializado, evitando atitudes que possam colocar a pessoa em risco.

A proposta foi justamente aproximar informações médicas da população, transformando conhecimento em uma ferramenta de prevenção e cuidado. Em situações como um possível AVC ou uma crise epiléptica, saber identificar o que está acontecendo e manter uma postura adequada nos primeiros momentos pode fazer diferença para a segurança do paciente e para o encaminhamento ao atendimento de saúde.

A iniciativa da Vigilância em Saúde reforça a importância de ações voltadas à educação em saúde e à prevenção. Ao promover espaços de diálogo com profissionais especializados, o Município busca ampliar o acesso da comunidade a informações confiáveis, estimular o cuidado com a saúde e preparar a população para agir com mais segurança diante de possíveis situações de emergência.



Fonte: Tua Rádio 





quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Mutações nos canais de cálcio interrompem o desenvolvimento cerebral precoce na epilepsia infantil


 Pesquisadores do Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos, descobriram um mecanismo até então desconhecido pelo qual mutações hereditárias nos canais de cálcio interrompem o desenvolvimento cerebral precoce e predispõem crianças à epilepsia e a desafios cognitivos relacionados. As descobertas lançam nova luz sobre como alterações genéticas sutis podem modificar os circuitos cerebrais muito antes do início das convulsões.

O estudo concentrou-se em mutações nos canais de cálcio do tipo P/Q, reguladores essenciais da liberação de neurotransmissores no cérebro. Sabe-se que essa mutação está associada à epilepsia infantil, mas ainda não se compreende completamente como ela afeta os circuitos neurais no início do desenvolvimento.

Utilizando um modelo em ratos para simular a epilepsia de ausência na infância, os pesquisadores conseguiram rastrear como uma única mutação no canal de cálcio influencia a via genética. A epilepsia de ausência na infância é caracterizada por descargas anormais de ponta-onda corticais originadas em circuitos tálamo-corticais que ligam o tálamo ao córtex, responsáveis pela regulação da consciência, atenção e processamento sensorial.

Os pesquisadores descobriram que essa mutação aumentou significativamente a expressão de dois genes pró-epilépticos a jusante, previamente associados à epilepsia de ausência em crianças. Inesperadamente, o canal de cálcio alterado também ativou uma importante via de sinalização de crescimento no cérebro, conhecida como sinalização Wnt, impulsionando a proliferação excessiva de neurônios de retransmissão talâmicos - células essenciais para a regulação da consciência e do processamento sensorial.

Esse aumento no crescimento neuronal começou antes do nascimento, indicando que as origens do distúrbio surgem muito antes do que o início das convulsões na infância poderia sugerir. Os autores sugerem que a desregulação simultânea de duas vias genéticas relacionadas à epilepsia pode ajudar a explicar por que muitas crianças não respondem aos medicamentos anticonvulsivantes convencionais de agente único. Segundo eles, essas descobertas destacam uma janela de vulnerabilidade no desenvolvimento pré-natal que tem sido amplamente negligenciada na pesquisa sobre epilepsia, abrindo caminho para descoberta de novos meios de detecção precoce e desenvolvimento de terapias direcionadas à excitabilidade neural e às vias de sinalização do desenvolvimento, que poderão um dia melhorar os resultados em crianças afetadas por epilepsia e distúrbios do neurodesenvolvimento relacionados.



Fonte: Neuron

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Thay Evangelista propõe ‘Política de Conscientização e Orientação sobre a Epilepsia’


 A Câmara Municipal de São Luís iniciou a tramitação do Projeto de Lei Nº 0116/2026, que institui a Política Municipal de Conscientização e Orientação sobre a Epilepsia no Município. De autoria da vereadora Thay Evangelista (Republicanos), a proposta tem como objetivo ampliar o acesso à informação sobre a epilepsia, combater o preconceito e promover a inclusão social das pessoas que convivem com essa condição neurológica.

Conforme a proposta, entre as diretrizes da política estão a divulgação de informações sobre as causas, sintomas e tratamentos da doença, a orientação sobre procedimentos de primeiros socorros durante crises epiléticas e o incentivo à inclusão de pessoas com epilepsia nos ambientes escolar, profissional e comunitário. Para alcançar esses objetivos, o projeto prevê a realização de campanhas educativas voltadas à conscientização da população, com informações sobre as características da doença, os cuidados necessários, o tratamento médico e o apoio às famílias.

Também estão previstas a distribuição de materiais informativos e a promoção de palestras e treinamentos destinados a profissionais das áreas de Saúde, Educação e Assistência Social, como médicos, enfermeiros, psicólogos, professores e assistentes sociais. Outro ponto é o incentivo à organização de um sistema de dados sobre pessoas com epilepsia no Município, permitindo a obtenção de informações que auxiliem no planejamento de políticas públicas, na identificação da incidência da doença e no fortalecimento de pesquisas científicas relacionadas ao tema.

O texto também estabelece que o Município poderá disponibilizar informações sobre prevenção, convivência e cuidados com a epilepsia em seu portal eletrônico, além de estimular parcerias entre o poder público, entidades da sociedade civil e a iniciativa privada para o desenvolvimento de ações conjuntas.

Dia Municipal de Conscientização sobre a Epilepsia

A proposta institui ainda o Dia Municipal de Conscientização sobre a Epilepsia, a ser celebrado, anualmente, em 26 de março e incluído no Calendário Oficial de Eventos de São Luís. A data deverá reforçar as ações de sensibilização da população e ampliar o debate sobre os direitos das pessoas com epilepsia.

O Projeto de Lei Nº 0116/2026 foi encaminhado às Comissões de Constituição e Justiça e de Saúde para análise técnica durante a sessão ordinária realizada no último dia 22 de junho.



Fonte: Câmara Municipal de São Luís