A análise retrospectiva reuniu dados de pacientes pediátricos atendidos em centros de neuro-oncologia dos Estados Unidos. Entre 119 crianças com DMG, as 15 que tinham histórico de uso de levetiracetam apresentaram sobrevida global mediana de 20,96 meses. Entre as 104 que não haviam usado o medicamento, a mediana foi de 9,92 meses.
O estudo, porém, não demonstra que o anticonvulsivante seja capaz de tratar ou curar o câncer. Como os dados clínicos analisados são retrospectivos, ou seja, avaliaram casos passados, e o número de pacientes que recebeu levetiracetam é pequeno, os próprios pesquisadores afirmam que são necessários estudos prospectivos para confirmar o possível benefício.
Como o medicamento pode agir
O levetiracetam é utilizado principalmente para prevenir e controlar crises epilépticas. A nova pesquisa investigou se ele também poderia interferir na comunicação entre neurônios e células tumorais.
Os pesquisadores partiram de evidências de que a atividade dos neurônios pode estimular o crescimento de gliomas. No caso dos gliomas difusos de linha média — que ocorrem em estruturas da linha média do sistema nervoso central, mais comumente o tronco encefálico, o tálamo ou a medula espinhal —, os cientistas observaram um papel específico das conexões mediadas pelo neurotransmissor Gaba, chamadas de sinapses GABAérgicas. Essas conexões podem produzir sinais elétricos que favorecem a proliferação das células tumorais.
Nos experimentos, o levetiracetam reduziu a transmissão desses sinais entre neurônios e células do DMG. O efeito também foi observado em modelos animais: o medicamento diminuiu a proliferação e a carga tumoral e prolongou a sobrevida de camundongos com modelos de DMG.
Os pesquisadores ressaltam que esse mecanismo parece ser diferente da forma tradicional pela qual o levetiracetam previne convulsões. O efeito contra o tumor não dependeria da proteína SV2A, principal alvo conhecido do medicamento no tratamento da epilepsia.
Efeito não foi observado em outros gliomas
O possível benefício não apareceu de forma geral entre os tumores cerebrais analisados. Em crianças com gliomas de alto grau localizados nos hemisférios cerebrais, o estudo não encontrou diferença significativa na sobrevida associada ao uso do levetiracetam.
Na análise retrospectiva, pacientes com gliomas hemisféricos que receberam o medicamento tiveram sobrevida mediana de 24 meses, contra 22,2 meses entre aqueles que não o receberam. A diferença não foi estatisticamente significativa.
Os experimentos pré-clínicos também não mostraram efeito do levetiracetam em modelos de gliomas hemisféricos de alto grau. Para os autores, isso reforça a hipótese de que o possível efeito do medicamento esteja relacionado às características específicas do DMG e às conexões entre os neurônios e esse subtipo de tumor.
Próximos passos
Os pesquisadores defendem a realização de ensaios clínicos prospectivos para verificar se o levetiracetam realmente prolonga a sobrevida de pacientes com DMG e quais grupos poderiam se beneficiar do tratamento.
O estudo também apresenta limitações importantes. Além do caráter retrospectivo da análise, a possibilidade de que diferenças entre os pacientes tenham influenciado os resultados não pode ser descartada. Os autores observam, por exemplo, que pacientes que receberam levetiracetam podem ter características biológicas diferentes daqueles que não receberam o medicamento.
Por isso, os resultados são considerados uma evidência inicial de um possível novo caminho terapêutico, e não uma comprovação de que o anticonvulsivante deva ser usado como tratamento contra o tumor.
Fonte: O Globo




