Uma das doenças neurológicas crônicas mais prevalentes no mundo, a epilepsia afeta cerca de 2% da população brasileira. Na Bahia, são mais de 280 mil cidadãos nessa condição, 50 mil só em Salvador.
Espera-se do poder público respostas coordenadas e contínuas. Mas só acontecem ações pontuais, serviços concentrados e ausência de estratégias de longo prazo.
A epilepsia é marcada por significativo ‘gap de tratamento’: uma parcela expressiva de pessoas não foi diagnosticada, foi diagnosticada mas não recebe medicação, ou recebe tratamento inadequado ou irregular.
Estima-se que até 50% das pessoas com epilepsia estejam sem tratamento adequado.
Resultado: aumento das internações hospitalares, elevação dos custos ao sistema de saúde, prejuízos à qualidade de vida, e inclusão social, maior exposição a acidentes, estigmatização e morte prematura.
A epilepsia possui tratamento eficaz, sendo possível o controle das crises em até 70% dos casos com uso regular de medicação e acompanhamento adequado.
Na Bahia, conviver com epilepsia não é apenas encarar uma condição neurológica.
É enfrentar um sistema que falha, e que, ao falhar, institui a negligência como política pública não declarada.
Verdade que houve avanços. A criação de centros especializados e a ampliação de procedimentos de alta complexidade no SUS são conquistas importantes.
Mas não alteram a realidade.
Funcionam mais como vitrines institucionais.
A realidade das pessoas com epilepsia na Bahia está longe desses centros.
Está nas filas da regulação, na demora por uma consulta com neurologista, na falta de exames básicos e, principalmente, na incerteza sobre o acesso contínuo aos medicamentos.
A irregularidade do tratamento, a descontinuidade do acesso às medicações não são apenas falhas.
São violações do direito à saúde.
O subdiagnóstico é outra dimensão do problema: a invisibilidade.
Quantas pessoas convivem com crises epilépticas sem sequer saber o que têm?
Quantas são tratadas de forma inadequada na atenção básica por falta de capacitação e suporte técnico?
A ausência de dados mais precisos contribui para a manutenção do problema fora das prioridades governamentais.
A concentração dos serviços especializados em Salvador e em poucos polos regionais reforça a desigualdade.
No interior da Bahia, o acesso à saúde especializada é privilégio. Não é direito garantido.
O problema estende-se à forma como a sociedade enxerga a epilepsia.
Pessoas com epilepsia continuam sendo excluídas do mercado de trabalho, subestimadas em ambientes escolares e silenciadas em espaços sociais.
Pasmem: em pleno século XXI, ainda há quem associe crise epiléptica com manifestação demoníaca!!!!
Absurdo inaceitável.
A epilepsia atinge cruelmente as populações mais pobres e vulneráveis.
Nesses casos, a doença não vem sozinha. Soma-se à precariedade das condições de vida, amplia desigualdades e aprofunda os processos de exclusão.
Urge reconhecer que o problema da epilepsia não é só técnico.
É político.
Enquanto a epilepsia não for prioridade, milhares de pessoas seguirão à margem do sistema.
Romper com esse ciclo exige política pública estruturada, financiamento adequado, descentralização do atendimento, formação de profissionais, garantia de medicamentos e campanhas de conscientização.
Pessoas com epilepsia não podem ser tratadas como invisíveis.
O que está em jogo não é apenas o controle de crises.
É o direito de existir com dignidade.
Fonte: Portal M



