Uma nova linha de investigação na luta contra a epilepsia está a ganhar forma nos laboratórios da Universidade Hebraica de Jerusalém. O foco recai não no sintoma mais visível – as crises –, mas numa espécie de ambiente biológico que parece alimentar a sua recorrência e, a prazo, contribuir para o agravamento da condição. A aposta reside num composto experimental minúsculo, um peptídeo batizado TXM-CB3, concebido para imitar a ação de uma proteína natural do organismo, a thioredoxina.
Esta proteína integra o sistema de defesa interno das células, ajudando a gerir o chamado stress oxidativo e a regular processos inflamatórios. São precisamente estes dois mecanismos que a ciência começa a associar fortemente não só ao desencadear de cada crise epilética, mas à forma como a doença se instala e progride, por vezes resistindo às terapias atuais. “A maioria dos tratamentos para a epilepsia concentra-se em reduzir as crises, mas o nosso objetivo era ver se poderíamos influenciar os processos subjacentes que podem conduzir a doença para a frente”, explicou o professor Tawfeeq Shekh-Ahmad, da Faculdade de Medicina, que orientou o trabalho.
A investigação, publicada na revista Redox Biology, foi conduzida principalmente pelos estudantes de doutoramento Prince Kumar Singh e Shweta Maurya, contando com a colaboração da professora Daphne Atlas, do Instituto de Ciências da Vida, que desenhou a família de peptídeos à qual pertence o TXM-CB3. A equipe partiu de modelos celulares que simulam atividade semelhante a crises, onde o composto conseguiu reduzir marcadores de dano oxidativo e modular a resposta imunitária para um perfil menos inflamatório.
O passo seguinte levou-os a testes em modelos pré-clínicos de epilepsia resistente a medicamentos, com crises recorrentes. Aí, avaliaram dois cenários cruciais. Num primeiro, a administração do TXM-CB3 logo após um evento inicial semelhante a um status epilepticus resultou num atraso no aparecimento das crises subsequentes, numa redução da sua frequência e numa melhor preservação de estruturas cerebrais ligadas à memória. Os animais tratados precocemente exibiram ainda menos comportamentos indiciadores de ansiedade e um desempenho superior em testes de memória de curto prazo.
Já quando o tratamento foi iniciado mais tarde, depois de estabelecido um ciclo de crises recorrentes, o peptídeo continuou a demonstrar capacidade para reduzir a atividade crítica ao longo do tempo. Contudo, e de forma que os investigadores consideram significativa, os défices de memória que já se haviam instalado não registraram melhorias substanciais. Esta disparidade de resultados dependendo do momento da intervenção sublinha, no entender da equipe, a importância crítica de uma abordagem terapêutica precoce. “O fato de termos observado tanto uma redução na atividade das crises como sinais de proteção cerebral nestes modelos experimentais fortalece a hipótese de desenvolver tratamentos que aproveitem as vias de proteção próprias do organismo”, comentou a professora Daphne Atlas.
A epilepsia afeta cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde, e até 40% dos casos mostram resistência aos fármacos atuais. Estes medicamentos, na sua maioria, atuam para conter a crise no momento, sem alterarem significativamente o curso da doença a longo prazo. A estratégia agora explorada é diferente: visa acalmar os sinais de stress químico e imunitário que podem estar na base da cronicidade e da progressão do quadro clínico.
É claro que estamos ainda numa fase embrionária. Os resultados, embora promissores, provêm de modelos experimentais, e um longo caminho de estudos é necessário para avaliar segurança, dosagem e eficácia em humanos. Apesar disso, a investigação traça uma direção palpável para o futuro. Aponta para a possibilidade de, um dia, se poder oferecer às pessoas com epilepsia não apenas um melhor controle das crises, mas uma terapia que possa mitigar as consequências neurológicas a longo prazo, influenciando positivamente a qualidade de vida de forma mais profunda. O cérebro, afinal, tem os seus próprios mecanismos de resiliência; a ciência tenta agora dar-lhes um empurrão.




