quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Sobrevivente de avalanche passa a ter epilepsia rara provocada por Sudoku; caso vira estudo na Alemanha

Um homem de 25 anos desenvolveu um tipo raro de epilepsia após sobreviver a uma avalanche durante uma viagem de esqui nos Alpes, em novembro de 2008. Soterrado por cerca de 15 minutos, ele sofreu hipóxia — a redução crítica de oxigênio nos tecidos — antes de ser resgatado por um amigo, que realizou manobras de reanimação cardiopulmonar. O jovem foi encaminhado a um hospital na Alemanha, onde recebeu atendimento especializado.

Nos dias seguintes ao acidente, surgiram movimentos involuntários nas pernas durante a caminhada e na boca ao falar, sinais associados a danos cerebrais provocados pela falta de oxigênio. Após a estabilização clínica, o paciente foi transferido para uma clínica de reabilitação para dar continuidade ao tratamento.

Crises desencadeadas por estímulos visuais

Durante o período de reabilitação, o paciente retomou o hábito de resolver quebra-cabeças de Sudoku, atividade que apreciava antes do acidente. Foi nesse contexto que apresentou espasmos repetidos no braço esquerdo, que cessaram imediatamente ao interromper o jogo. O padrão chamou a atenção da equipe médica, liderada pelo neurologista Berend Feddersen, da Universidade de Munique, e motivou uma investigação detalhada.

De acordo com um relatório citado pela Live Science, publicado recentemente, exames de eletroencefalograma (EEG) identificaram atividade epiléptica na região centroparietal direita do cérebro, área relacionada ao controle motor do braço esquerdo. Uma ressonância magnética convencional não revelou lesões estruturais evidentes, o que levou os médicos a recorrer a métodos mais avançados.

Exames de ressonância magnética funcional (RMf), realizados enquanto o paciente resolvia o Sudoku, mostraram ativação cerebral ampla, com intensidade acentuada no córtex centroparietal. Já imagens ponderadas por difusão indicaram redução de fibras inibitórias nessa região, o que favorecia uma hiperatividade neural capaz de desencadear convulsões. Segundo o laudo médico, a hipóxia sofrida durante a avalanche foi apontada como a causa mais provável dessa vulnerabilidade.

O diagnóstico final foi de epilepsia reflexa, condição em que crises são provocadas por estímulos específicos. No caso, tarefas que exigiam processamento visual e espacial complexo, como a visualização tridimensional envolvida no Sudoku, atuavam como gatilho. O paciente não apresentou convulsões ao ler, escrever ou fazer cálculos simples, mas atividades visuais semelhantes, como ordenar números aleatoriamente, também induziam os episódios.

Tratado com medicação antiepiléptica, o jovem permaneceu sem crises por mais de cinco anos, segundo a Live Science. A fisioterapia reduziu os movimentos involuntários residuais, e, como medida preventiva, ele passou a evitar jogos e tarefas capazes de desencadear convulsões.

Embora cerca de 3,8% da população desenvolva epilepsia ao longo da vida, apenas entre 4% e 7% dos pacientes apresentam epilepsia reflexa. A literatura médica já descreveu casos associados a jogos como Zipai, na China, e Mahjong, em Taiwan, mas não havia registros anteriores de crises provocadas especificamente por quebra-cabeças de Sudoku.

Para os especialistas, o caso ilustra como danos cerebrais causados pela falta de oxigênio podem alterar circuitos neurais e transformar atividades cotidianas em potenciais desencadeadores de crises. Também reforça a importância do atendimento médico imediato em situações de hipóxia e do acompanhamento neurológico prolongado, fundamentais para a adaptação da rotina e a qualidade de vida dos pacientes.



Fonte: O Globo 




quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Belarus desenvolve novo remédio nacional contra a epilepsia


 Cientistas de Belarus desenvolveram o medicamento Gabapentina-NAN, destinado ao tratamento da epilepsia e de outras doenças do sistema nervoso. De acordo com a BelTA, parceira da TV BRICS, o fármaco já foi lançado no mercado nacional e pode substituir medicamentos equivalentes atualmente importados.

A inovação recebeu amplo reconhecimento em nível estatal. A Academia Nacional de Ciências de Belarus incluiu o medicamento entre os dez principais resultados científicos do país em 2025, na área de pesquisas básicas e aplicadas, ressaltando sua importância para a ciência e para a saúde pública.

O desenvolvimento do remédio levou mais de quatro anos de pesquisas e testes. Segundo os especialistas, o novo produto apresenta eficácia equivalente à dos medicamentos estrangeiros, mas com um custo cerca de 50% menor, o que amplia o acesso dos pacientes ao tratamento.

Os pesquisadores destacam que a seleção adequada dos componentes, incluindo o princípio ativo e os excipientes, foi um dos maiores desafios do projeto. Embora se apresente como uma cápsula simples, o medicamento exigiu estudos aprofundados e testes rigorosos para assegurar sua qualidade, segurança e eficácia.



Fonte: Tv Brics


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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Maioria das crianças com microcefalia por zika tem epilepsia, diz estudo


 A maioria das crianças com microcefalia associada ao vírus zika no Brasil apresenta um conjunto de sequelas neurológicas e sensoriais que impactam o desenvolvimento e aumentam o risco de morte. Um estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), publicado na revista Plos Global Public Health, mostrou que mais da metade dos pacientes apresentou epilepsia e déficit de atenção social e até 67% tiveram alterações oftalmológicas. Além disso, cerca de 80% apresentavam calcificações cerebrais em exames de imagem.

Segundo os pesquisadores, trata-se do maior estudo do mundo sobre os principais efeitos do zika vírus na infância, já que outras pesquisas se baseiam em séries de casos com poucos participantes. A Fiocruz analisou de forma detalhada a saúde e a evolução clínica de 843 crianças com a Síndrome Congênita do Zika (SCZ).

O estudo acompanhou 843 crianças nascidas entre 2015 e 2018, período que concentrou a epidemia de zika no Brasil. As informações foram coletadas presencialmente em consultas com mães e crianças em 12 centros de pesquisa do Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do país.

O zika vírus foi identificado pela primeira vez no Brasil em 28 de abril de 2015, e, nos meses seguintes, levou ao nascimento de milhares de bebês com microcefalia. A doença é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, vetor também da dengue e da chikungunya.

No estudo, os pesquisadores identificaram a microcefalia ao nascer em 71,3% das crianças (601 de 843). O estudo também mostrou que 20,4% das crianças desenvolveram o quadro apenas durante o acompanhamento pós-natal, não apresentando a condição ao nascer. Destas, cerca de 63% apresentavam microcefalia grave e 36%, moderada.

Ao todo, 394 crianças apresentaram microcefalia desproporcional, quando o corpo tem tamanho esperado, mas a cabeça é menor —padrão associado a danos cerebrais mais graves. Segundo a pesquisadora Maria Elizabeth Moreira, da Fiocruz, embora existam casos proporcionais, a maioria é desproporcional.

Os transtornos neurológicos foram frequentes e graves. A epilepsia, que causa convulsões graves, afetou entre 30% e 80% das crianças, com média de 58,3%. Déficits de atenção social, como ausência de sorriso social ou de fixação do olhar, foram relatados em pelo menos metade dos casos. Dificuldades de deglutição foram observadas em cerca de 46,9% das crianças.

Exames de imagem, como ultrassom, tomografia e ressonância magnética, revelaram danos estruturais severos em quase todos os participantes. Entre as alterações mais frequentes estão as calcificações cerebrais, depósitos anormais de cálcio no tecido do cérebro, que podem causar convulsões (crises com movimentos involuntários e, em alguns casos, perda de consciência), hipertonia (rigidez muscular aumentada) e espasticidade (contrações musculares persistentes que dificultam os movimentos).

Para o médico infectologista Kleber Luz, professor da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e coordenador do comitê de arbovírus da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), o estudo tem papel fundamental ao consolidar evidências que, embora já observadas na prática médica, ainda encontravam resistência em parte da comunidade científica.

Segundo ele, a síndrome congênita associada ao zika representou um quadro totalmente novo e, durante a epidemia, chegou a ser atribuída a outros fatores, como vacinas, pobreza ou condições ambientais, especialmente por ter atingido de forma mais intensa o Nordeste do país.

"É um estudo robusto, com muitas crianças e uma caracterização detalhada que solidifica os achados que médicos e pesquisadores já vinham observando desde a epidemia", afirma Luz.

A microcefalia associada ao zika tem características próprias e pode variar conforme o momento da gestação em que a mãe foi infectada, explica Moreira. Quando a infecção ocorre no primeiro trimestre, o cérebro do feto deixa de se formar adequadamente. Nos casos mais frequentes, em que a infecção acontece no segundo ou terceiro trimestre, o cérebro estava em crescimento e sofre destruição das células cerebrais, em um processo chamado apoptose.

"A gravidade varia de acordo com a extensão da lesão e com a idade gestacional em que o feto foi acometido."

O estudo também identificou fatores associados à microcefalia, como prematuridade, baixo peso ao nascer e outras malformações congênitas. A prematuridade, em especial, tende a agravar o prognóstico.

De acordo com a pesquisadora, cerca de 30% das crianças com formas mais graves da síndrome morreram no primeiro ano de vida, principalmente por complicações como pneumonia por aspiração e infecções recorrentes. Aproximadamente 70% seguem em acompanhamento, mas ainda não é possível estimar a expectativa de vida, já que se trata de uma condição recente e pouco estudada.

Luz destaca que, embora estudos menores já tivessem identificado essas alterações, faltava uma análise de grande escala que confirmasse a gravidade e a permanência das sequelas. Um dos principais exemplos é a epilepsia associada à microcefalia por zika, que, segundo ele, não é um quadro comum.

É uma epilepsia grave, de difícil controle, que exige múltiplos medicamentos, doses altas e acompanhamento constante", afirma.

Outro ponto destacado pela pesquisadora da Fiocruz é a importância da estimulação precoce. Segundo ela, a estimulação sensorial, motora e cognitiva pode permitir que áreas preservadas do cérebro assumam funções das regiões lesionadas.

"Intervenções como fisioterapia, fonoaudiologia, correção precoce de déficits visuais e auditivos e controle rigoroso das convulsões são fundamentais para melhorar o prognóstico", diz Moreira.

Luz afirma que as sequelas são irreversíveis e que a expectativa de vida dessas crianças, em média, varia entre 10 e 15 anos, embora algumas possam viver mais com os avanços da medicina.



Fonte: Folha de São Paulo

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Paulo Dantas sanciona lei que garante atendimento prioritário para pessoas com epilepsia em Alagoas


 MACEIÓ (AL) — O governador de Alagoas, Paulo Dantas, sancionou a Lei nº 9.791/2025, que estabelece o atendimento prioritário para pessoas diagnosticadas com epilepsia em todo o território estadual. A medida, publicada no final de dezembro, tem a finalidade de garantir agilidade e dignidade no acesso a serviços públicos e privados para esses pacientes.

Regras da nova legislação

De acordo com o texto da lei, a prioridade se estende aos atendimentos em diversos estabelecimentos:

Atendimento conjunto: Os acompanhantes ou atendentes pessoais das pessoas com epilepsia também terão direito ao atendimento prioritário junto ao titular do benefício.

Formas de atendimento: Os estabelecimentos poderão oferecer guichês, caixas ou linhas específicas. Caso não existam postos exclusivos, a prioridade deve ser garantida imediatamente após o atendimento que estiver em curso.

Comprovação: Para usufruir do direito, o cidadão poderá apresentar um laudo médico ou uma carteirinha de identificação. A regulamentação sobre como será a expedição dessa carteira ainda será definida por ato do Poder Executivo.

Vigência

A lei foi assinada no Palácio República dos Palmares e entrou em vigor na data de sua publicação, passando a valer já para este início de 2026. A iniciativa reforça as políticas de inclusão no estado, reconhecendo as especificidades e necessidades de quem convive com a condição.



Fonte: BR104

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A incrível limpeza cerebral reduziu as crises epilépticas e restaurou a memória


 A epilepsia do lobo temporal causa convulsões recorrentes e muitas vezes prejudica a memória e o pensamento. Novas pesquisas mostram que a condição também está ligada ao envelhecimento prematuro de algumas células cerebrais. Cientistas do Centro Médico da Universidade de Georgetown relatam que a eliminação dessas células senescentes em ratos levou a menos convulsões, melhor memória e proteção contra a epilepsia em alguns animais. As células senescentes foram removidas através de abordagens genéticas e tratamentos medicamentosos.

O estudo, financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), foi publicado em 22 de dezembro na revista Anais de Neurologia.

Uma nova abordagem para a epilepsia resistente a medicamentos

“Um terço das pessoas que vivem com epilepsia não se livram das convulsões com medicamentos modernos”. diz o autor sênior Patrick A. Forcelli, PhD, professor e presidente do Departamento de Farmacologia e Fisiologia da Escola de Medicina de Georgetown e Jerome H. Fleisch e Marlene L. Cohen Professor de Farmacologia. “Esperamos que a senoterapia, que envolve o uso de medicamentos para remover células senescentes, possa potencialmente minimizar a necessidade de cirurgia e/ou melhorar os resultados após a cirurgia”.

A epilepsia do lobo temporal (ELT) pode ocorrer por vários motivos subjacentes. Estes incluem lesões na cabeça relacionadas com trauma ou acidente vascular cerebral, infecções como meningite, tumores cerebrais, estruturas anormais dos vasos sanguíneos e doenças genéticas hereditárias. A ELT é a forma mais comum de epilepsia que não responde bem à medicação e afeta aproximadamente 40% das pessoas com epilepsia.

Células que apoiam o envelhecimento foram encontradas em tecido cerebral humano

Para estudar a biologia subjacente à ELT, os investigadores examinaram tecido cerebral humano de doadores que tinha sido removido cirurgicamente dos lobos temporais de pacientes com epilepsia. Quando comparados com amostras de autópsia de indivíduos sem epilepsia, os tecidos de pacientes com ELT mostraram um aumento de cinco vezes nas células gliais senescentes. As células gliais ajudam a apoiar e proteger os neurônios, embora elas próprias não gerem sinais elétricos.

Experimentos em ratos mostram redução de convulsões e melhora da memória

Com base nas descobertas em tecido humano, a equipe investigou se um acúmulo semelhante de células senescentes ocorreu em um modelo de camundongo projetado para imitar a ELT. Duas semanas após a lesão cerebral que iniciou a epilepsia em ratos, os investigadores encontraram um claro aumento nos marcadores de envelhecimento celular, tanto a nível genético como proteico.

Quando foram utilizados tratamentos para remover células senescentes, o efeito foi significativo. O número de células senescentes diminuiu cerca de 50%. Os ratos tratados tiveram um desempenho normal nos testes de memória do labirinto, tiveram menos convulsões e cerca de um terço ficaram completamente protegidos do desenvolvimento de epilepsia.

Medicamentos reaproveitados com perfis de segurança conhecidos

Um tratamento medicamentoso testado em ratos combinou dasatinibe e quercetina. O dasatinibe é uma terapia direcionada atualmente usada para tratar a leucemia. A quercetina é um flavonóide vegetal encontrado em frutas, vegetais, chá e vinho que pode atuar como um poderoso antioxidante e possui propriedades antiinflamatórias. Esta combinação de medicamentos tem sido amplamente utilizada em estudos animais para eliminar células senescentes em vários modelos de doenças.

Os investigadores escolheram estes medicamentos em parte porque ambos já estão a ser avaliados em ensaios clínicos de fase inicial para outras doenças. Forcelli também observa que o dasatinibe foi aprovado pela FDA para uma forma de leucemia, o que significa que seu perfil de segurança está bem estabelecido. Isto poderia permitir uma transição mais rápida para ensaios clínicos em pessoas com epilepsia.

Implicações mais amplas para o envelhecimento cerebral e doenças

Os primeiros coautores do estudo, Tahiana Khan, Ph.D. e David J. McFaul, ambos estagiários do laboratório de Forcelli, observam que o envelhecimento das células gliais foi recentemente associado ao envelhecimento normal e a doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer. Essa conexão é outro foco de sua pesquisa atual.

“Temos estudos em andamento usando outros medicamentos que podem afetar o envelhecimento, bem como estudos em outros modelos de epilepsia em roedores. Gostaríamos de compreender janelas importantes para intervenção na epilepsia e esperamos que esses estudos levem a tratamentos clinicamente úteis”, diz Forcelli.



Fonte: Segunda Base