quinta-feira, 17 de maio de 2018

Formação de novas células cerebrais não prossegue ao longo da vida - estudo

Cientistas sugerem num novo estudo  divulgado que o processo de formação de novos neurônios no cérebro (neurogênese) diminui durante a infância e é indetetável em adultos, contrariando a tese de que ocorre ao longo da vida.
No estudo, publicado na revista Nature, a equipe científica analisou 59 amostras de tecido cerebral de uma região específica, o hipocampo, considerado essencial para a aprendizagem e a memória e onde os especialistas têm procurado indícios de que novos neurônios (células cerebrais) continuam a nascer ao longo da vida.
Segundo a investigação, o nascimento de novos neurônios no hipocampo humano cai na infância e a neurogénese em adultos, observada em aves e roedores, aparentemente não ocorre em pessoas, assinala em comunicado a Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, que lidera o trabalho.
"Se a neurogénese é tão rara que não podemos detetá-la [nos adultos], poderá estar realmente a desempenhar um papel importante na plasticidade ou na aprendizagem e memória no hipocampo?", pergunta um dos coautores do estudo, Shawn Sorrels, citado pela universidade.
No estudo, que levanta novas questões sobre o funcionamento do cérebro humano, foram analisadas 37 amostras de tecido do hipocampo de cadáveres e 22 amostras de tecido da mesma região cerebral removidas cirurgicamente de doentes com epilepsia. As amostras de tecido são de recém-nascidos, crianças, jovens e adultos.
Os investigadores estudaram alterações no número de neurônios 'recém-nascidos' e de células estaminais neuronais (que dão origem a neurônios), desde antes do nascimento até à fase adulta, usando uma variedade de anticorpos para identificar células de diferentes tipos e estados de maturidade. Foi também analisada a forma e a estrutura das células.
A equipe constatou que a neurogénese abundava no desenvolvimento pré-natal do cérebro e em recém-nascidos, ao observar uma média de 1.618 neurônios 'jovens' por milímetro quadrado de tecido cerebral no momento do nascimento.
Contudo, o número de células recém-nascidas cai significativamente nas amostras de tecido cerebral obtidas durante os primeiros anos de vida: o número de novos neurônios numa criança de 2 anos era cinco vezes menor do que o verificado em recém-nascidos.
Os cientistas sustentam que o declínio do processo de formação de novos neurônios no cérebro continua na infância, com o número de novas células a diminuir 23 vezes entre 1 e os 7 anos de idade e mais 15 vezes aos 13 anos, idade em que os neurônios parecem ser mais maduros do que os observados nas amostras de cérebros ainda mais jovens.
Os autores do estudo constataram também que havia apenas 2,4 novos neurônios por milímetro quadrado de tecido do hipocampo no começo da adolescência, não tendo encontrado vestígios de neurônios 'recém-nascidos' em nenhuma das amostras de tecido cerebral de cadáveres de jovens de 17 anos ou das amostras de tecido extraídas cirurgicamente de 12 doentes adultos com epilepsia.
Ao focarem-se nas células estaminais neuronais, descobriram que são abundantes durante o desenvolvimento cerebral pré-natal, mas são extremamente raras no início da infância.

Fonte: Diário de Notícias

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Henry Molaison, o homem que inventou a memória

Memória e memórias


Não existe indivíduo mais importante para o progresso do estudo da memória do que Henry Gustave Molaison, um americano epiléptico de Connecticut conhecido desde 1953 (aos 27 anos) até sua morte em 2008 em textos das ciências do cérebro em todo o mundo simplesmente como H.M. 1953 foi o ano em que Molaison foi salvo da epilepsia mais violenta por uma psicocirurgia feita pelo médico genial William Scoville no Hartfort Hospital de Connecticut. Colateralmente, Henry acabaria abrindo para o mundo o universo cheio de sutilezas que é o sistema de memória abrigado no cérebro humano.

Pegue qualquer livro pré-2008 de neurociência ou psicologia, e são enormes as chances de você topar em alguma página com a história de Henry Molaison, possivelmente acompanhada de adjetivos como “incrível” e “fascinante”. A vida pós-cirurgia de Henry mostraria que a memória não é um processo único; ou que, nas palavras de Suzanne Corkin (1937-2016), biógrafa e neurocientista que trabalhou com o paciente, “nosso cérebro é como um hotel com diferentes tipos de hóspedes – lar para diferentes tipos de memória, cada uma ocupando seu próprio conjunto de quartos”.

O livro de Corkin, Presente permanente, publicado em 2013 nos Estados Unidos e traduzido agora no Brasil pela Record com revisão técnica de Suzana Herculano-Houzel, mistura a história de vida de Henry Molaison com a história do desenvolvimento da ciência da memória. Como resultado, ao atravessar as quase quatrocentas páginas de texto, o leitor sai educado sobre um fascinante tópico científico e cativado pelo aspecto mais humano da questão.

Henry sofria ataques epilépticos desde os 10 anos de idade. Primeiro, eles eram do tipo “petit mal”, apagões que duram algumas dezenas de segundos, durante os quais a pessoa fica estática e perde qualquer contato com o mundo em volta. Mas quando Henry chegou aos 15 anos, os ataques ficaram cada vez mais violentos, com enrijecimento dos membros seguido de convulsões. Aos 27 anos, a vida se tornara um inferno. Nenhum dos tratamentos disponíveis à época serviam mais para amenizar o quadro. Foi quando Henry acabou como paciente do doutor Scoville, que – com base em estudos e técnicas que se acumulavam desde os anos 20, e aproveitando a voga da psicocirurgia – propôs uma operação experimental: a extração, em cada lado do cérebro, da metade anterior do hipocampo e parte do córtex circundante, além de mais da metade da amígdala. Acreditava-se que, sem essas regiões, de papel central em ataques epilépticos, as crises do paciente se reduziriam consideravelmente. De fato, foi o que aconteceu.

Mas algo mais aconteceu: após a cirurgia, Henry não conseguia mais formar novas memórias. Por exemplo: todas as vezes que médicos e enfermeiras entravam em seu quarto no hospital, tinham que se apresentar novamente, porque Henry já havia esquecido seus nomes e rostos desde a última vez que os vira – no dia anterior ou até no mesmo dia!

Isso aconteceu porque, como viria a ficar claro, o hipocampo é uma estrutura fundamental para a consolidação de novas informações. Quando os dados do mundo entram em nosso cérebro, vindo dos sentidos, alguns deles acabarão armazenados, como memória de longo prazo, nas regiões corticais, mas antes disso eles precisam ir para o hipocampo e voltar para o córtex. Sem o trabalho do hipocampo, você ainda poderá recuperar memórias dos tempos em que ainda tinha um hipocampo funcional, mas não conseguirá criar novas memórias.

A compreensão desse processo foi um dos presentes involuntários de Henry Molaison para a ciência, dentre tantos outros. Desde a sua cirurgia em 1953 e o impacto imediato que seus problemas de memória tiveram na equipe médica, mais de uma centena de cientistas examinaria Henry, para levantar e testar hipóteses relacionadas ao funcionamento da memória humana e temas correlatos, como as relações entre memória e emoção. A partir de seus 27 anos, a história de Henry, um sujeito sempre fácil de lidar e educado, é cheia de lances impressionantes que continuamente empurraram pesquisadores para novas fronteiras do conhecimento sobre a mente.

Antes de mais nada, confirmou-se a hipótese de que memórias de curto e longo prazo são tipos distintos de processamento cognitivo e, logo, provêm de bases biológicas diferentes. De fato, a memória de curto prazo de Henry (informações que mantemos na mente por alguns segundos, enquanto executamos alguma tarefa) ficou preservada, enquanto a memória de longo prazo (ou seja, a capacidade de transformar aquela memória de momento em uma memória permanente) se perdeu. Ele conseguia se lembrar de muita coisa de antes do ano da cirurgia – experiências na escola, em casa, nas férias –, mas não guardava o que acontecia após esta data.

Mas esperem só. A memória fica mais intrincada do que isso. Não foi todo tipo de memória de longo prazo que Henry perdeu. Apenas a memória declarativa (ou explícita), que precisa de processamento consciente. Sua memória não declarativa (implícita, inconsciente) não foi prejudicada. Este último tipo de memória de longo prazo depende do funcionamento de regiões como os núcleos da base e o cerebelo – que não foram afetadas na psicocirurgia de Henry.

O caso de Henry também mostrou o fracionamento dos passos da memória. Para que possamos dizer que temos algo consolidado na mente, precisamos ter intactos os processos de codificação, armazenamento e recuperação. Inúmeros testes cognitivos realizados com Henry mostraram que ele codificava informações normalmente, mas não as armazenava, e por conseguinte não as recuperava.

Existe no livro de Suzanne Corkin um relato delicioso, que ilustra perfeitamente o estado dos diversos tipos de memória no cérebro de Henry. Certa vez, nos anos 1980, antes de pegar Henry para levá-lo para o centro de pesquisas no MIT onde Corkin acompanhava seu progresso, um assistente da faculdade passou em um McDonald’s para almoçar e voltou para o carro com um copo de café. Quando Henry entrou no carro e, durante o trajeto, olhou pela primeira vez para o copo, ele disse “Ei, eu conheci um cara chamado John McDonald quando era menino!”, e começou a contar histórias suas com o garoto. Em seguida, ele virou o rosto para ver a paisagem ao lado da estrada. Pouco tempo depois, bateu a vista no copo mais uma vez e exclamou “Ei, eu conheci um cara chamado John McDonald quando era menino!”, passando a contar as mesmas histórias. A cena ainda se repetiu de novo e de novo, até que o motorista finalmente escondeu o copo do McDonald’s. Henry lembrava de um fato longínquo, solidificado em seu córtex bem antes da cirurgia de 1953, mas não conseguia formar a nova memória de que acabara de contar uma história para o motorista!

 Mente e cérebro

Ainda nos anos 80, Henry Molaison confirmou outra teoria: a do psicólogo cognitivo George Mandler, que dizia que a memória de reconhecimento se dividia em dois processos distintos (familiaridade e recordação), baseados em áreas distintas do cérebro. Familiaridade é quando você vê alguém na rua ou numa festa e tem a sensação de já tê-lo visto antes, mas não lembra a circunstância. Se você lembra a circunstância, você está recordando. Pois bem. A capacidade de recordação havia sido destruída em Henry – porque o hipocampo é necessário para o processo, e o hipocampo de Henry fora removido –, mas não sua capacidade de reconhecimento via familiaridade, como ficou claro após vários testes. Henry ajudou a desvendar que este último subtipo de memória depende do funcionamento de uma região vizinha ao hipocampo, o córtex perirrinal, parte que fora poupada na cirurgia de 1953. Daí, relata Suzanne Corkin, “o sentido de familiaridade que permeava o mundo de Henry” e o ajudava a “lidar com sua amnésia incapacitante ao enraizá-lo e dar a ele o sentimento de que estava em família no Bickford e no MIT”.

Outra colaboração de Henry para a ciência da mente foi auxiliar a entender a complexidade das separações e interconexões entre memória e emoção. O próprio Henry tinha pouquíssimos momentos de raiva. Como escreve Suzanne Corkin, quando consideramos o quanto da ansiedade e da dor da vida diária surge de cuidar das nossas memórias de longo prazo e de preocuparmo-nos em planejar o futuro, podemos apreciar porque Henry viveu a maior parte de sua vida com relativamente pouco estresse.

 Quando sua mãe foi hospitalizada para fazer uma cirurgia, em pouco tempo ele esqueceu a informação em si, devido à ausência do hipocampo, mas ainda assim permaneceu vários dias com uma sensação vaga de ansiedade. Essa sensação se impunha vinda de áreas do sistema límbico, estruturas evolutivamente mais primitivas do cérebro, que não foram prejudicadas pela cirurgia de 1953, e onde a informação sobre a mãe chegara em algum momento, evidentemente causando efeitos.

 Suzanne Corkin e outros cientistas no entorno de Henry só começaram a testar e estudar mais profundamente sua estrutura emocional nos anos 1980. Corkin lembra que não havíamos feito essa avaliação antes porque, nos anos 1960 e 1970, muitos neurocientistas, inclusive membros do meu laboratório, evitavam tópicos que pertencessem ao reino da psicologia clínica e da psiquiatria.

 É interessante observar que esse passo da equipe de Corkin finalmente ocorreu quando o ambiente científico, nos Estados Unidos e no ocidente como um todo, via cada vez mais como fútil a tentativa de separar totalmente as ciências do cérebro e as da mente umas das outras. A própria separação entre mente e cérebro, se for além de algum nível necessário para o didatismo, pode se tornar mera ideologia e prejudicar a compreensão de questões urgentes como os transtornos mentais.

 Como outra notável neurocientista, Nancy Andreasen (1938- ), escreveu no início deste século, a propósito da rixa entre alguns profissionais da psiquiatria e da psicologia, pelo fato de reverenciarmos tanto a mente, temos a impressão de que suas doenças devem ser tratadas com técnicas ‘profundas’, tais como psicoterapia, que trabalham diretamente com a mente e suas funções, tais como sentimentos e memórias.

 Porém, “drogas afetam a mente, e psicoterapia afeta o cérebro”. Quando técnicas psicológicas são efetivas, é porque levam a mudanças no ‘cérebro plástico’, que aprende novas formas de resposta e de se adaptar que são traduzidas em mudanças na maneira como a pessoa sente, pensa e se comporta. A psicoterapia, às vezes relegada como ‘apenas conversa’, é, de seu jeito próprio, tão ‘biológica’ quanto o uso de drogas (Brave new brain, Oxford University Press, 2001).

Andreasen não está dizendo que intervenções psicológicas podem fazer tudo que uma medicação psiquiátrica faz. Mas medicações também não fazem o que uma terapia eletroconvulsiva faz. E uma terapia eletroconvulsiva não faz o mesmo que uma psicoterapia. O que a cientista aponta é a incorreção e ociosidade da separação rígida entre ciências que, todas, têm efeito na mente/cérebro.

Se essas ciências estão mais integradas hoje do que em qualquer momento do século passado; se indivíduos podem se beneficiar de abordagens conjuntas com foco em sua saúde mental, é em grande parte graças a Henry Molaison. Não é por outro motivo que ele estará para sempre tanto em nossos livros de psicologia, quanto nos de psiquiatria, neurobiologia e mesmo filosofia da mente – é possível ter identidade sem ter memória? Aquele cordato cidadão de Connecticut provaria para o mundo que tudo o que temos de mais precioso, todas as características que nos distinguem dos demais seres vivos, está fragilmente contido, aqui e agora, nas dimensões do nosso crânio, ao mesmo tempo em que pode maravilhosamente se expandir no tempo desde nossas primeiras lembranças até o futuro que conseguimos planejar ou imaginar.

Fonte:Estadão  

 



quinta-feira, 3 de maio de 2018

Famílias criam redes de apoio para uso medicinal da cannabis

Quando se fala em maconha no Brasil, é comum pensar no uso recreativo da droga. No entanto, o que muitos não sabem é que a erva pode mudar a vida de pacientes com doenças raras com o uso medicinal. O canabidiol, também conhecido como CBD, é uma das substâncias presentes na cannabis, tem efeitos terapêuticos e não possui as propriedades alucinógenas dos entorpecentes recreativos, presentes no THC (tetraidrocanabinol). Apesar das dificuldades de conseguir esse tipo de tratamento para problemas como epilepsia, câncer, Alzheimer e Parkinson, famílias cariocas vêm sentindo na pele os benefícios do uso do composto e criando redes de apoio para que novos pacientes tenham acesso ao fármaco.
Uma das primeiras brasileiras a importar o canabidiol para fins terapêuticos e diretora da ONG Apepi (Associação de Apoio à Pesquisa a Pacientes da Cannabis Medicinal), Margarete Brito conta que conheceu o canabidiol em 2013, depois de saber, pelas redes sociais, que uma jovem americana estava respondendo bem ao tratamento. Margarete entrou em contato com a família da menina e conseguiu trazer a substância para o Brasil para tratar sua filha, Sofia, que sofre de CDKL5, que causa epilepsia refratária. A atitude para salvar a vida da criança, perante a lei, era considerada tráfico internacional.

Após uma falha de reposição no fim de uma caixa de medicamentos, Margarete acabou recebendo uma amostra do extrato da planta feito de maneira artesanal. A resposta de Sofia foi positiva, o que fez com que a família passasse a plantar maconha em casa, também de forma ilegal. "Plantar é proibido. Não é fácil. Quando você começa a plantar, você começa na ilegalidade, eles não dão autorização para você começar. O meu salvo-conduto só deram porque eu já estava plantando, dando para minha filha há um ano. Organizei toda a documentação para mostrar ao juiz que não tinha como voltar atrás", conta Margarete, cujo pioneirismo facilitou o processo para diversos pacientes, através do precedente judicial.

 Com uma plantação no terraço de casa, na zona sul do Rio, Margarete explica que o ciclo da planta é de quatro meses. Após a colheita das flores, também conhecidas como "camarões" ou "Ganjah", para a elaboração do extrato, a pequena árvore morre, tornando necessária a "clonagem", ou seja, a retirada de mudas ao longo do processo. O tipo cultivado é o Harle-Tsu, com maior concentração de CBD e pouquíssimo THC, em uma proporção de 20 para um, medida com o auxílio do projeto Farmacannabis, da Faculdade de Farmácia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). A iniciativa também avalia as concentrações em produtos importados. 

 Apesar de haver o projeto na UFRJ, a atuação dos cientistas é limitada. Margarete critica o fato de as pesquisas ainda serem escassas no Brasil. A diretora da Apepi conta que o plantio não é permitido nem mesmo para estudos. "Como vamos avançar na ciência, na pesquisa, se a matéria-prima é proibida? O Farmacannabis só recebe material se o paciente tiver um salvo-conduto, se não vier da ilegalidade. Ela não pode ter uma planta nem para pesquisar dentro do laboratório, é proibido, é crime. Isso é muito complicado. É um atraso no avanço das pesquisas", lamenta.

Outro caso semelhante é o de Maria Clara, portadora da Síndrome de Rett, que causa comprometimentos motores, cognitivos, problemas gastrointestinais e ortopédicos, além da epilepsia. Mãe da menina, Aline Voight destaca que a ilegalidade do produto prejudica o acesso dos pacientes ao canabidiol, principalmente os que não têm recursos financeiros para a importação do medicamento.

"Existem crianças que respondem bem ao produto importado e outras que respondem bem aos artesanais. Também existem crianças que não têm condições de arcar com os custos desse produto importado. Nosso sonho, na verdade, não é que o SUS incorpore o medicamento importado, é que incorpore o extrato brasileiro. A importação não é garantia de acesso", disse Aline, que explica que algumas famílias precisam ir à Justiça para receberem auxílio governamental e de planos de saúde, além de Habeas Corpus para fazerem plantações dentro das casas. O custo com produtos importados pode variar entre R$ 1 mil e R$ 7 mil.

Antes do uso da cannabis, Maria Clara tentou 12 medicamentos diferentes, que comprometiam o funcionamento do organismo da menina e traziam efeitos colaterais mais fortes. Com o canabidiol, houve apenas duas trocas de marcas de produtos, uma evolução no tratamento. Aline destaca que o método trouxe benefícios que vão "além da contagem de crises", que não aparecem na vida da menina há aproximadamente três anos. Maria apresentou evolução no sistema cognitivo e conseguiu reduzir a ingestão de outros medicamentos, o que trouxe uma melhora no funcionamento do fígado.

Aline diz que é "100% a favor da regulamentação da maconha, não só para fins medicinais e terapêuticos". "A gente vê crianças que tiveram uma melhora inacreditável. A palavra maconha já trazia medo. Conhecemos crianças que tiraram todos os medicamentos. Mas não só essa questão", continua. "Também para o uso social, recreativo e industrial. As drogas não podem ser encaradas como crime. É uma questão de saúde. A partir do momento que você criminaliza, você não vai fornecer tratamento adequado para os dependentes, você vai tratá-los como criminosos, quando são pessoas que precisam de atenção", afirma.

Margarete acredita que a criminalização da maconha está relacionada a fatores históricos, políticos e econômicos. Além disso, a diretora da Apepi destaca que há o preconceito com o método, mesmo se tratando de um uso medicinal. "As pessoas pensam que o remédio tem que ser dentro de uma pílula. Na hora que começam ver planta, pronto, começam a ficar com medo. O preconceito é nada mais que a falta de informação. As pessoas também ficam com medo de se envolver, não querem se expor, porque a questão da maconha é muito ligada à questão marginal", diz Margarete.

Para a diretora da Apepi, o melhor remédio para compreender a questão é a informação. Nos dias 18 e 19 de maio, a associação realiza um evento, em parceria com a Fiocruz, sobre uso medicinal da maconha, no Museu do Amanhã, na zona portuária do Rio. Além disso, no sábado (5), está marcada mais uma edição da Marcha da Maconha, na praia de Ipanema.

"A pessoa tem que se informar. Acho que você pode ser a favor ou contra qualquer coisa. Não existe uma verdade absoluta. É muito arrogante da nossa parte dizer que você não pode ser contra. Você pode ser contra, desde que tenha bons fundamentos. Cada um pode ter sua opinião, não podemos achar que quem é contra está errado. Eu, que sou a favor e me aprofundei um pouquinho mais, posso achar que a pessoa está equivocada, mas acho que todo mundo tem direito. Viva a liberdade de expressão", finaliza.

Fonte: Destak

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Laboratório de Toledo deve ser o primeiro a produzir e vender extrato de canabidiol no país

Um laboratório de Toledo, no oeste do Paraná, deve ser o primeiro a produzir e vender no país o extrato de canabidiol - substância extraída da maconha.
 
Em fase final de testes clínicos, a previsão dos pesquisadores é que o medicamento esteja disponível no mercado até o fim de 2018. 

O extrato de canabidiol (CBD) tem efeito anticonvunsionante e é usado principalmente no tratamento de epilepsia em crianças. Atualmente, o produto precisa ser importado com a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)

As pesquisas vêm sendo desenvolvidas em conjunto pelo laboratório farmacêutico Prati Donaduzzi e a Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto (SP) - primeiro centro de estudos do canabidiol no Brasil -, há três anos, quando foram importadas as primeiras plantas e iniciados os testes com a Cannabis sativa. 

O projeto teve investimento inicial de R$ 11 milhões. 

De acordo com o professor Jaime Hallak, da Faculdade de Medicina da USP, além de reduzir os custos com importação, a produção em laboratório promete garantir uma substância mais pura e completamente livre do THC, o princípio que causa o efeito psicoativo da maconha. 

O presidente da Prati Donaduzzi, Eder Fernando Mafissonni, calcula que os estudos clínicos sejam concluídos ainda neste semestre. Cento e vinte e seis crianças estão recebendo o medicamento em São Paulo. 

 Somos o laboratório com os estudos mais avançados no mundo e queremos ser o primeiro a conseguir comprovar a eficácia terapêutica do canabidiol. O nosso também será o primeiro no mundo considerado medicamento", comentou.

O produto foi patenteado no Brasil e no exterior. O próximo passo será o registro nos órgãos sanitários e em seguida a comercialização.

Além da epilepsia, a esquizofrenia e o mal de Parkinson são as doenças com estudos mais avançados em relação ao uso do canabidiol feitos pelos pesquisadores da USP. 

Para baratear o medicamento, a parceria estuda também a produção em laboratório do canabidiol sintético, processo em que não há necessidade de se ter a Cannabis sativa em planta. 

O extrato é obtido a partir da estrutura molecular, com técnicas de bioquímicas e farmacêuticas, por meio das quais se cria artificialmente moléculas com a mesma eficácia.
Neste caso, a expectativa é que o produto esteja no mercado em três anos. 

Benefícios

Ângela Schmitz importa o produto do Reino Unido para o filho Lucas, de 11 anos. O menino começou a ter convulsões aos quatro anos. 

"Nós perdemos o chão e ele teve a mudança de uma vida normal de criança para uma vida sempre com alguém cuidando, atendendo, porque não dava para deixar ele sozinho", conta.
Desde então, com até 30 crises epiléticas por dia, foram muitos tratamentos e medicamentos até chegar ao canabidiol. 

 Ele chegou a tomar oito anticolvulsionantes. Depois que nós começamos com o canabidiol, as crises reduziram em mais de 80% e ele teve muito mais qualidade de vida. Agora ele pode fazer coisas de criança normal", destaca Ângela.

Por mês, Lucas usa três vidros do medicamento. Cada um custa US$ 390, fora o custo do transporte. 

O produto nacional deve tanto reduzir o custo como alguns transtornos ainda comuns no processo de importação, facilitando o acesso para quem precisa. 

"Você não sabe se vai chegar no prazo que precisa, por isso tem que ter um estoque muito maior do que imagina que vai usar. Pode haver problema na saída do país que vende ou na entrada do país da pessoa que está comprando, problema de transporte ou de receber um produto danificado e ter dificuldade para reclamar", aponta. 

Ângela acredita ainda que o medicamento feito no país pode trazer mais tranquilidade também quanto à certeza da procedência e da qualidade do produto. 

Fonte: G1
 
 

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Prefeitura atrasa repasses e Instituto de Neurologia ameaça interromper cirurgias pelo SUS

O Instituto de Neurologia de Goiânia (ING) pode interromper a realização de tratamento cirúrgico de epilepsia por falta de repasses por parte da Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura de Goiânia.
O hospital é o único que realiza a técnica em Goiás e recebe também pacientes de toda a região Centro-Oeste, além do Norte e Nordeste. O tratamento para epilepsia via procedimento cirúrgico é classificado como cirurgia eletiva e recebe verba específica do Fundo de Ações Estratégicas e Compensação (FAEC) do Ministério da Saúde para sua realização.
“Chegamos a fazer 200 procedimentos por ano e pelo menos 90% deles é pelo SUS. Nosso hospital é referência não apenas para Goiás, mas para o Brasil todo nessa área”, ressalta o coordenador do programa e diretor administrativo do hospital, Dr. Francisco Arruda.
Ele explica que o problema para o recebimento da verba é local porque mesmo o dinheiro oriundo do governo federal passa pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
“O faturamento para a realização do serviço pelo SUS é feito de duas maneiras. A fatura paga com recurso oriundo do orçamento da SMS e a complementação paga pelo Ministério da Saúde, mas que também chega via secretaria municipal. Essa complementação já não é paga há quase dois anos e a dívida já é de quase R$ 1 milhão”, explicou ao Jornal Opção.
“Já entramos em contato com o Ministério da Saúde e eles nos mostraram que, da parte deles, o repasse está em dia. O problema é local”, afirmou. Ainda de acordo com Arruda, o hospital entrou em contato por mais de uma vez com o prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB), e com a secretária de Saúde, Fátima Mrué, que prometeram dar uma solução ao problema, mas nada apresentaram de concreto.
O Jornal Opção também entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), mas não obteve resposta.
Diante do problema, o diretor do hospital afirma que não restou outra opção a não ser a suspensão de novas cirurgias. “Os pacientes que já estão em tratamento, iremos atendê-los até o final porque queremos honrar o compromisso que fizemos com essas pessoas. Mas, a partir de agora, o agendamento de novos procedimentos estão suspensos até que haja uma solução”, disse.
O médico lamenta porque fora do eixo Sul-Sudeste, o ING é o único que faz a cirurgia. “São cirurgias eletivas, então não existe urgência. Mas se deixarmos passar meses sem o procedimento, o paciente acumula riscos de consequências graves da epilepsia e até de morte”, disse.
Além disso, o hospital lamenta ter que interromper o atendimento ao SUS. “Nosso serviço que oferecemos é de qualidade internacional, nossos equipamentos são de ponta e nossa intenção nunca foi interromper o convênio. Queremos abrir diálogo para encontrar uma solução e manter o programa de tratamento para epilepsia”, arrematou.

Fonte: Jornal Opção