quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Aplicação prática da farmacogénetica pode beneficiar pacientes com epilepsia grave

Pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp – integrantes do Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia (Cepid Brainn) da Fapesp – acabam de publicar um artigo no periódico internacional PLOS One. Trata-se do primeiro relato, na literatura, sobre a possível aplicação prática de dados de farmacogenética, no tratamento de pacientes com epilepsia grave.
“Com os dados genéticos dos pacientes – explica a neurologista Iscia Lopes-Cendes – é possível aumentar, de maneira significativa, a capacidade de predição sobre quais pacientes não responderão bem ao tratamento com os medicamentos”.
Com a capacidade de predição aumentada, explica Iscia, é possível selecionar, mais precocemente, àqueles pacientes que podem se beneficiar do tratamento cirúrgico. “Isso pode poupar anos de tentativas, sem sucesso, de tratamento com medicamentos, e levar a um tratamento que possa controlar as crises de maneira mais eficiente”, explicou. 
O artigo intitulado “A Prediction Algorithm for Drug Response in Patients with Mesial Temporal Lobe Epilepsy Based on Clinical and Genetic Information” foi publicado na última quarta-feira (4 de janeiro), e conta com os seguintes autores: Mariana S. Silva-Alves, Rodrigo Secolin , Benilton S. Carvalho, Clarissa L. Yasuda, Elizabeth Bilevicius, Marina K. M. Alvim, Renato O. Santos, Claudia V. Maurer-Morelli, Fernando Cendes e Iscia Lopes-Cendes.
Fonte: Unicamp

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Briga por medicamento importado leva 4 meses

Depois de ganhar na Justiça o direito de receber medicamentos importados para doenças que não têm tratamento no Brasil, pacientes precisam enfrentar outra batalha: a burocracia. A espera para que os remédios, na maioria das vezes essenciais para a manutenção da vida, cheguem ao País é em média de quatro meses, contados da decisão judicial. Esse é o prazo para que guias sejam preenchidas, alvarás liberados e, nos últimos meses, para que o aval do ministro da Saúde, Ricardo Barros, seja concedido.
Desde que assumiu o posto, Barros determinou que ele próprio liberaria a aquisição de medicamentos não fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) cuja compra se tornou obrigatória por mandados judiciais. Questionada, a pasta confirma a nova exigência e atribui a mudança a uma estratégia de controle de gastos na área.
“Se para nós o prazo já é alto, imagine para um paciente”, afirma o representante de uma distribuidora, sob a condição de anonimato. Com a mudança, o prazo médio para todo o processo foi ampliado em, pelo menos, um mês, garante. “Agora são quase 120 dias entre a definição da empresa ganhadora para realizar a importação e a chegada do medicamento no porto.”
Além de mais uma etapa de compra, distribuidores se queixam de redução nos lotes importados. Para cortar despesas com frete e seguro da importação, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passara a permitir que compras para atender a demandas judiciais fossem feitas para até seis meses de tratamento do paciente. Segundo distribuidoras, o Ministério da Saúde agora reduziu as aquisições para o suficiente para três meses. “Como são remédios caros, o frete e seguro dos produtos estão na casa de US$ 15 mil”, diz o distribuidor. 
O Ministério da Saúde, no entanto, nega ter reduzido a quantidade. A pasta sustenta que as compras estão sendo feitas conforme diretrizes. De acordo com o custo do medicamento, a aquisição pode ser feita para um período que varia entre seis meses e um ano de tratamento.
A espera não ocorre só nas compras do governo federal. Secretarias Estaduais também são alvo de processos e muitas vezes são obrigadas pela Justiça a fornecer medicamentos que não estão no SUS. A maior parte das ações é sobre doenças órfãs – problemas considerados graves, raros e que não dispõem de tratamento no Brasil. Pacientes se queixam de que o tempo entre a decisão da Justiça e a chegada do remédio também é longa. 

Mudança. Há exatos três anos, Any, de 8, começou a usar canabidiol para contornar as crises convulsivas. Diante dos resultados, os pais dela, Norberto Fischer e Katiele, ingressaram em 2014 com uma ação na Justiça para obter o produto. A medida provocou uma revolução nas regras, não só para o canabidiol, mas para outros medicamentos sem terapias no País.
“Há ainda muito o que melhorar, mas as coisas avançaram”, diz Norberto Fischer. A permissão do uso do canabidiol foi a primeira regra da Anvisa feita a partir da pressão de familiares de pacientes. Até então, a regulação era resultado de iniciativas dos diretores da autarquia ou da indústria de fármacos.
“O alcance dessas medidas é limitado, porque boa parte das compras é feita por meio de governos”, diz Fischer. A presidente da Associação de Familiares, Amigos e Portadores de Doenças Graves, Maria Cecília Oliveira, considera a burocracia grande. A Anvisa afirma receber em média 300 mil processo de importação por ano. A agência diz que estuda medidas para reduzir o prazo de análise dos pedidos. 

Fonte: Estadão Saúde

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Maconha medicinal avança no Brasil: Sempre senti que plantar o remédio da minha filha era legítimo

Os últimos meses de 2016 foram históricos para o avanço da chamada maconha medicinal no Brasil.
Entre novembro e dezembro, três famílias conseguiram o salvo conduto para que plantassem a maconha com objetivo de produzir extratos que pudessem ser usados por seus filhos.
Margarete Santos de Brito, mãe e militante que cultiva cannabis para o tratamento da filha, Sofia, de 7 anos, conseguiu a proteção judicial para garantir o cultivo de plantas de maconha em sua própria casa, o que a legislação brasileira ainda não aceita. Marcos Lins, o marido, também não corre nenhum risco de ser acionado judicialmente pelas plantas.
O mesmo aconteceu, no mesmo mês de novembro, com Alexandre Meirelles e Maria de Fátima, pais de Gabriel Meirelles, 14 anos, que sofre com epilepsia e tem tomado doses de CBD, extrato da maconha, nos últimos cinco meses.
O HuffPost Brasil conversou com Margarete e Alexandre para ter uma melhor dimensão do que está começando a acontecer em nosso território nacional.
O salvo conduto, o tradicional habeas corpus preventivo, não permite que as polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro levem Margarete e seu marido Marcos presos nem apreendam o cultivo, mantido para cuidar de Sofia, portadora de CDKL5, doença rara que tem como um de seus sintomas crises convulsivas.
O efeito é semelhante com Alexandre e sua família, que já haviam, em processo anterior, garantido que o estado do Rio de Janeiro passasse a ceder os remédios a Gabriel. A decisão foi favorável a Alexandre, mas o poder público nunca cumpriu o que devia.
"Este ano foi realmente muito bom [para a maconha]. Tem o projeto da Farmacannabis ( campanha colaborativa no Catarse para a compra de equipamentos e material que serão utilizados para verificar as dosagens dos canabinoides), na UFRJ. Temos a Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz] envolvida com o tema também. E conseguir falar de maconha dentro de um braço do Ministério da Saúde é um passo muito grande. Levei minhas flores [da cannabis] para padronizar dentro da UFRJ, com a supervisão da professora Virgínia Carvalho. E tudo isso é um engajamento da sociedade civil, que está se juntando à Academia", comemorou Margarete, em entrevista ao HuffPost.
A advogada Margarete sabe bem o que está dizendo. Ela é a presidente da Associação de Apoio á Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi) e está na linha de frente pelo direito ao acesso aos extratos preparados com cannabis há anos. Foi ela também quem protagonizou o documentário Ilegal, quando ela ainda não plantava.
Plantando a cannabis desde março para a extração da solução usada por Sofia, a família de Margarete passou meses desprotegida pela lei. É que, segundo a Lei de Drogas (11.3433/2006), é crime cultivar ou colher “plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física ou psíquica. Sim, crime.
Ainda assim, mesmo com a possibilidade de acabar criminalizada, não causou medo nem desconfiança em Margarete: "Sempre senti que plantar o remédio da minha filha era um direito legítimo. Por que vou esconder? É para poder fazer o remédio para a minha família. Quando fui despachar com a promotora, ela me olhou e disse que faria o mesmo que faço. Mas ela quis garantir que não tivesse nenhum problema: 'Vai que um policial desavisado faz algo contra vocês'", conta ela. O salvo conduto acabou assinado pela juíza Lídia Maria Sodré de Moraes, de Botafogo, na zona sul.
Há, claro, barreiras ainda muito retrógradas para tratar do tema. A falta de informação leva a distorções quanto ao uso medicinal da maconha. "São preconceitos. Não só da doença, mas do tratamento. Não só com a epilepsia, mas com a esclerose múltipla. Existem questões de patentes, de laboratório. E imagine que uma planta serve para tudo isso... Então, quero essa patente para mim", critica Alexandre, em fala ao Huff.
"Alguns médicos não querem se capacitar. É uma planta. Perfume é de feito de quê? Alface, chicória, cheiro verde... Por que a maconha não pode não ser um medicamento?", indaga Alexandre. "Se tua mãe e teu pai precisassem da maconha, esse é o caminho que você faria? Tem a planta, tem a terra, por que não pode fazer o medicamento?", completa.
Desde 2014, foram 1.947 solicitações de importação de produtos à base de derivados da maconha enviadas à Anvisa, sendo 1.802 autorizadas. Mas, mesmo com os avanços, o remédio industrializado ainda é proibitivo. "Se importar é R$ 5 mil e demora três a quatro meses para chegar. Burocracia imensa. Precisa ser diferente. Estamos lidando com vidas", critica Alexandre.
Margarete, por sua vez, enxerga maiores aberturas para a planta. "O uso medicinal é muito tranquilo hoje em dia. É só um maluco ou outro que fala bobagem nas redes sociais. O uso medicinal é uma porta de entrada de outros usos. O uso recreativo, religioso, sei lá... Abre porta para debate sem preconceito. Senti muito isso. Estou há três anos nisso. Lá atrás, quando fazíamos os debates, todos ficavam se olhando, mas todo mundo se sensibiliza", conta Margarete.
Para o advogado Emílio Figueiredo, 38, da Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas e que representa diversos clientes com problemas relacionados ao proibicionismo da maconha, a manifestação da Justiça pelas famílias cariocas deve ser considerada histórica. "Tivemos um avanço muito concreto. É a primeira vez que o Judiciário reconhece o uso da maconha medicinal. São pessoas que cultivam para tratar os filhos. Eles não correm o risco de serem criminalizados. É uma decisão inédita."
Ele não acredita em acaso. Para Emílio, o fato de as famílias na capital fluminense estarem unidas para o cultivo e terem se organizado em grupos de autocultivo acabou resultando nas vitórias. "Não é uma coincidência. Tem uma cena muito forte dos cultivadores da cannabis medicinal no Rio. Temos associações que ajudam no apoio a quem precisa também, como a Abracannabis e a Apepi, que a Margarete participa, inclusive."
Mas e a legalização para o chamado uso recreativo? Margarete torce para uma abertura que vá nesse sentido também. "Sou super a favor a legalização do uso recreativo. É tão legítimo quanto o medicinal. Tem gente que fala em priorizar o medicinal, mas não acho. Acho que o recreativo é tão urgente quanto. É tudo questão da guerra às drogas. A quantidade de gente que morre."
A solução é a informação: "É uma decisão política. Talvez no Judiciário a gente consiga. Mas é uma luta por informar. E, através do uso medicinal, é um passo para abrir a informação."

Fonte: HuffPost Brasil

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Comissão Europeia aprova uso de medicamento da Bial para epilepsia em crianças

A Comissão Europeia aprovou a indicação terapêutica de um medicamento da farmacêutica portuguesa BIAL para a epilepsia. O medicamento destina-se a adolescentes e crianças com mais de seis anos.
 Em comunicado enviado esta terça-feira, a BIAL refere que o medicamento para a epilepsia “está agora indicado em todos os países da UE como terapêutica adjuvante em doentes adultos, adolescentes e crianças com mais de seis anos com crises epiléticas parciais, com ou sem generalização secundária”.

A epilepsia é uma das doenças neurológicas mais comuns em todo o mundo, atinge 50 milhões de pessoas, sendo que só na Europa, onde há 6 milhões de portadores, são detetados todos os anos 100 mil novos casos em crianças e adolescentes. Segundo a empresa, esta aprovação tem como base “vários estudos que demonstram a eficácia e segurança deste fármaco, nomeadamente ao nível neurocognitivo (capacidade de concentração, processamento de informação e memória)”.

O acetato de eslicarbazepina representa o primeiro fármaco de patente nacional. Este medicamento para a epilepsia representou “um marco histórico” para a indústria farmacêutica portuguesa quando, em 2009, foi aprovado pela Comissão Europeia. Em 2013, este medicamento foi também aprovado pelo regulador norte-americano, a Food and Drug Administration (FDA). Atualmente, é comercializado em vários países europeus (entre os quais o Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha e França) e nos EUA e Canadá.

Nos últimos anos, em média, BIAL tem canalizado mais de 20% da sua faturação anual (mais de 40 milhões de euros) para I&D centrada nas neurociências, no sistema cardiovascular e imunoterapia alérgica. “A investigação de novas soluções terapêuticas continuará a ser um dos alicerces da expansão internacional do grupo BIAL, atualmente com produtos disponíveis em mais de 55 países”, sublinha a farmacêutica.

Fonte: Observador

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Anny Fischer redescobriu o mundo após três anos de tratamento

O colchão está no piso da sala cercado de travesseiros. Mas eles não representam mais um obstáculo para a pequena Anny Bortoli Fischer, 8 anos. A menina tem ultrapassado limites jamais imaginados pela família. “Esses dias fui buscá-la debaixo do sofá”, relembra a mãe, Katiele Fischer, 35, aos risos. A menina redescobriu o mundo. Sons, o volume da voz e sorrisos. Uma infância tardia que voltou a ganhar tons de alegria e tranquilidade após o uso do canabidiol (CBD), uma das substâncias derivadas da maconha. Em novembro, completou três anos desde que Anny tomou a primeira dose e a vida de toda a família começou a mudar.
 A pequena sofre de um problema genético raro. Antes do início do tratamento com o canabidiol, tinha, em média, 60 convulsões por semana. As crises eram provocadas por um tipo de epilepsia grave, causada pela síndrome CDKL5. “Como vou explicar o que sinto quando tenho de acordar meia-noite para pedir que ela diminua o volume dos sons? Como vou explicar o que sinto quando vou acordá-la e ela se espreguiça? Isso é tudo para mim, são as coisas mais lindas”, afirma a mãe. Encontrar palavras para descrever detalhes tão comuns e simplórios parece besteira, mas enchem de lágrimas os olhos de Katiele e do pai, Norberto Fischer, 47. Aos poucos, a filha mais nova do casal tem desvendado um universo próprio. As convulsões saíram de cena. No lugar, entraram as gargalhadas repentinas, as birras para escovar os dentes e, principalmente, os olhares atentos e curiosos. “Não sabemos o que ela entende, mas que ela entende o que falamos é certo. Tem reações”, comenta a mãe.
Para quem viu Anny há dois anos ou mais, é inevitável se surpreender. Mesmo cansada depois da fisioterapia, quando os pais abrem a porta do carro e começam as brincadeiras, ela esbanja sorrisos. Como as crianças na idade dela, faltam alguns dentes no riso da menina, mas sobra espontaneidade. No colchão no piso da sala, como uma bailarina, joga as pernas de um lado para o outro e, quando ninguém está olhando, levanta o tronco sozinha. “Sem vergonha você, Anny. Na hora da foto você não faz isso”, brinca Katiele. A boneca de pano, como pais e avós costumavam descrevê-la por conta da falta de movimentos próprios, ganhou vida e cresceu. “As minhas costas que o digam”, complementa a mãe.
 Com convulsões esporádicas e menos intensas, o clima na casa dos Fischer é outro. As preocupações e os medos ainda existem, mas já não guiam a vida da família. Uma atmosfera de descontração e felicidade contagia quem entra pelo portão branco da residência no Setor Habitacional Taquari. Dias de sol ou chuva são sempre uma oportunidade de festa e bagunça, e Anny adora uma folia. Deitada na rede, na varanda de casa, ela vibra com os respingos da água. “Dentro dos limites impostos pela síndrome, ela está muito bem”, avalia Katiele. “Está mais presente no mundo e percebendo o mundo.”
 Diante da melhora da pequena Anny, nem as fronteiras geográficas são impensáveis. Em outubro, a família viajou aos Estados Unidos para conhecer o casal que tornou as mudanças viáveis: Penny e Dustin Howard. Eles são os pais de Harper, uma menina de 5 anos que tinha a mesma síndrome de Anny. Foi por uma publicação de Dustin nas redes sociais que Katiele descobriu o CBD e seus benefícios. Infelizmente, a criança americana morreu em janeiro deste ano nos braços dos pais com uma infecção respiratória. “O encontro foi emocionante. Não conseguia parar de chorar”, relembra Katiele. Os assuntos, as experiências, os questionamentos e as alegrias daquelas duas famílias, mesmo distantes fisicamente, eram similares. Para o jornal norte-americano Dallas News, que registrou o momento, era como se a casa dos Howards estivesse em festa como na véspera da noite de Natal.
 
 
 
 
 
 Fonte: Correio Braziliense