quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Superação:The Good Doctor em Cuiabá: estudante de medicina autista sonha em ser neurocirurgião

Lançada em 2017 e sucesso no Brasil em 2018, a série The Good Doctor mostra a história de Shaun Murphy, um residente de medicina portador do Transtorno do Espectro Autista (TEA), que sonha em se tornar um grande cirurgião e tem que lidar tanto com as suas dificuldades da síndrome quanto com o preconceito das pessoas em relação à sua escolha profissional.
Em Cuiabá, Enã Rezende Bispo do Nascimento, 26 anos, vive essa ficção na vida real. Diagnosticado com TEA aos 18 anos, apesar de ter vivido com a síndrome a vida toda, Enã escolheu aos 10 anos que seria neurocirurgião. Estudou, batalhou e em janeiro se formará em medicina pela Universidade de Cuiabá (Unic).
O grau de autismo de Enã é leve, mas ele possui alguns dos sintomas característicos do espectro, como o hiperfoco, a tendência a ficar mexendo as mãos, a hipersensibilidade sonora, tátil e às vezes fotossensibilidade, em que ambientes com muita luz o incomodam. Boates, por exemplo, em que há muitas pessoas, luzes e barulho, são locais difíceis para ele.

A descoberta

Na infância, Enã foi diagnosticado de forma errônea com psicose infantil. Quando pequeno, ele contou ter sofrido muito preconceito por parte das outras crianças e até dos pais delas. Além do autismo, à época não diagnosticado, ele também tinha desvaria, um distúrbio na fala que dificultava a pronúncia de algumas palavras.
“Na infância eu sofri muito. As crianças viam que eu era diferente, que eu era uma criança introspectiva, mas que tentava conversar, se aproximar. E eu tinha dislalia, não conseguia falar o ‘r’ vibrado, fazer o trator com a língua. Aí as crianças me achavam esquisito, falavam que eu era louco, retardado, deficiente e, às vezes, até os pais não me ajudavam, muito pelo contrário, falavam para os filhos: ‘fica longe daquele louco’”, lembrou.




Mas engana-se quem pensa que o bullying atrapalhou Enã. Segundo ele, as dificuldades somente o impulsionaram a se superar.
“Eu vi que eu tinha que me superar, que eu tinha que provar para todo mundo que eles estavam errados de pensar isso de mim. Eu percebi que só dependia de mim, que eu tinha que correr atrás, que tinha que tentar ser alguém. Foi uma superação, foi muito difícil. Até na época do cursinho muita gente tentou me desmotivar a fazer medicina”, contou.
O estudante disse que o lugar em que foi melhor acolhido foi a igreja – ele frequenta a primeira igreja Batista de Cuiabá. O pai era pastor, os avós também eram muito evangélicos, e, por isso, ele frequentou a igreja desde pequeno.
“É uma sensação tão boa, é um amor. Eu tenho um pouco de sensibilidade para essas coisas e consigo sentir a aceitação. Tanto que o barulho me incomoda, mas, estranhamente, os louvores da igreja não me incomodam. As orações, Deus na minha vida, tem sido fundamental para mim”, relatou.





O diagnóstico correto, de Transtorno do Espectro Autista, veio somente aos 18 anos, e foi recebido por Enã com uma mistura de alegria – por finalmente entender várias características de si mesmo – e tristeza – por perceber que tinha uma condição neurológica sem cura.

Medicina

A escolha da medicina veio cedo. Aos 10 anos Enã já sabia o que queria ser quando crescer. Quando ele tinha sete anos, seu pai morreu de traumatismo craniano, ao sofrer um acidente automobilístico, o que despertou sua vocação.
“Não sei bem se foi isso, mas foi uma das coisas que me direcionou. Porque eu adquiri muita curiosidade sobre como que ficou a cabeça dele”, afirmou. Enã queria entender o que houve e poder ajudar situações como a do pai. Ele acredita que o acontecimento ficou em sua cabeça e, depois de três anos, despertou a ideia de fazer medicina e se tornar um neurocirurgião.




Nascido em Umuarama (PR), foi depois da morte do pai que Enã veio para Mato Grosso, para ficar próximo da família da mãe, que é de Rondonópolis. Veio para Cuiabá cursar o 3º ano do ensino médio, fez cursinho em Goiânia (GO) e retornou para a Capital mato-grossense quando passou em medicina.
Começar o curso não foi fácil. A princípio, o estudante teve muitas dificuldades. Segundo ele, as pessoas não o entendiam, nem tinham paciência, mas com o tempo e a convivência, se acostumaram com as diferenças e o aceitaram.
Para colaborar com a aceitação, Enã precisou mudar sua socialização, até mesmo pensando na relação médico e paciente. Antes de entrar para a medicina, quando ainda estava no cursinho, em 2009, o estudante comprou livros de linguagem corporal para conseguir melhorar sua forma de lidar com os próximos e passou a estudar.
“Esses livros davam estratégias de socialização. Uma coisa que eu aprendi a fazer foi conversar olhando nos olhos das pessoas, que passa mais tranquilidade e confiança. Os livros dão uma série de dicas para você fazer o triângulo social, olhar nos olhos, olhar na boca, porque se você ficar o tempo todo só olhando nos olhos também não é legal”, disse.
Segundo Enã, atualmente, a maioria dos pacientes nem mesmo percebem que ele tem Transtorno do Espectro Autista. No começo ele tinha um pouco mais de dificuldade em falar com eles, mas, como começou a interagir com pacientes no 2º ano da faculdade, eles achavam que era nervosismo pela falta de experiência.




Faltando poucos meses para a colação de grau, Enã já está se preparando para as provas de residência. Ele pretende tentar a do Sistema Único de Saúde (SUS) de São Paulo, a do AMRIGS, que atende a hospitais do Rio Grande do Sul, e, em Cuiabá, do Hospital Geral Universitário (HGU) e do Santa Rosa, os dois hospitais da Capital mato-grossense que tem neurocirurgia.
Depois dos dois anos da residência, ele ainda enfrentará mais cinco anos de especialização em neurocirurgia.

The Good Doctor

Enã começou a assistir a série e acabou de terminar a primeira temporada. Desde que The Good Doctor ficou conhecida no Brasil, ele disse que muitas pessoas têm lhe comparado ao doutor Murphy. Aliás, até mesmo ele diz se reconhecer em muitos detalhes da série.
“Algumas coisas eu me vejo. O hiper foco, o fato de a gente não entender a linguagem conotativa, levar tudo mais para o literal, inclusive isso foi e é uma dificuldade minha, em relação a certas piadas”, contou.
Porém, diferente do Shaun, que não gosta de ser tocado, Enã gosta muito de abraçar. Ele afirmou que com algumas pessoas se importa em ser tocado e com outras não, mas que não sabe explicar como funciona a seletividade.


Enã, a mãe e o padastro, em seu ensaio de formatura


Na série, o personagem também tem a Síndrome de Savant, em que ele grava tudo que lê e lembra em detalhes. Enã disse acreditar que não tem, mas que, se tiver, é um grau bem leve.
“O que eu consigo lembrar são coisas da minha infância remota, de quando eu tinha um ano de idade. Eu lembro, mas quando eu conto para as pessoas, elas não acreditam. Aí conto para minha mãe e familiares e eles confirmam”, disse.
Além dessas características, o motivo que levou Enã e o personagem Shaun Murphy a se interessarem pela medicina também é parecido: ambos perderam pessoas importantes ainda na infância (Enã o pai e Shaun o irmão) e isso despertou a vontade de ajudar os outros a viver.
Uma das maiores vantagens em Shaun Murphy como cirurgião, sempre citada na série, é uma que Enã acredita ser também a sua maior vantagem como médico.
“O hiperfoco, na minha opinião, é minha maior vantagem na minha profissão. Vou sempre estar 100% focado na cirurgia, se tiver fatores emocionais, se acontecer algo antes, isso não vai me atrapalhar”, afirmou.





Assim como a série tem trazido a mensagem de que pessoas com Transtorno do Espectro Autista podem ser independentes e seguir qualquer carreira com excelência, Enã acredita ser um exemplo de que tudo é possível.
“Sinceramente, não existe nada que impeça a gente [autistas] de fazer o que quer fazer. Não só para medicina, mas para tudo que você desejar, tudo que você tiver vontade, você pode. Assim como o Bill Gates”, disse Enã, usando como exemplo o co-fundador da Microsoft, citado no livro “Thinking in pictures”, de Temple Grandin, como tendo características autistas.




Fonte: O Livre

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Brasil ganha curso online inédito voltado para Medicina Canabinóide

Diversas pesquisas e estudos nacionais e internacionais apontam que a cannabis medicinal possui grande eficácia em diversos tratamentos para câncer, autismo, Alzheimer, dor crônica, ansiedade, entre outros. Porém faltam informações precisas a respeito do assunto. Para contribuir na divulgação de dados, a partir deste mês de outubro, serão disponibilizados os primeiros cursos voltados para profissionais da saúde e pacientes.
Inéditos no Brasil, os cursos serão online e ministrados por meio do CEC - Centro de Excelência Canabinóide, em parceria com a empresa americana Medical Marijuana 411, que desenvolveu programas de e-learning de última geração para a certificação exigida por estados americanos e a educação continuada para profissionais médicos. Os cursos online são certificados pelos estados de Washington e Alaska, nos Estados Unidos, e com mais de 800 citações de pesquisas revisadas por especialistas. Os cursos são considerados os mais completos do mundo e, inicialmente, serão disponibilizados nos idiomas português e inglês e, em breve, em espanhol.
"Estamos investindo na área da educação a fim de ajudar na capacitação dos profissionais de saúde e pacientes. Queremos contribuir para a melhor qualidade de vida dos pacientes que precisam de tratamento à base da cannabis medicinal e de seus familiares", explica Pedro Pierro, médico neurocirurgião e diretor médico do CEC.
O curso para médicos - Certificação Profissional Médica - está estruturado em 11 módulos, feito para médicos que já prescrevem ou pretendem prescrever, profissionais da área da saúde em busca de conhecimento, treinamentos e certificações, além de graduandos em Medicina, residentes ou recém-formados. Os módulos consistem nos seguintes temas: panorama jurídico e posicionamento da Anvisa, história do uso da planta, sistema endocanabinóide, dosagens, contraindicações, testes de laboratório e prática clínica em diversos problemas de saúde, entre outros tópicos.
Também é possível encontrar no portfólio de cursos do CEC, o chamado Cannabis Medicinal Básico, desenvolvido para pessoas com problemas de saúde que já se tratam ou buscam tratá-las por meio de tratamento focado na prática da medicina canabinóide, e também para pessoas que tenham interesse em adquirir conhecimento sobre essa especialidade médica. Mais informações estão disponíveis no portal http://cecmedical.com.br

Localizado na cidade de São Paulo, o CEC - Centro de Excelência Canabinóide - além de atuar na área educacional, também trabalha no acesso, com uma clínica especializada na medicina canabinóide e uma equipe de médicos especialistas e certificados. "O acesso a uma prescrição é muito complicado para os pacientes que necessitam desse tipo de tratamento, pois os médicos não estão preparados para fazê-las. Estamos atendendo desde o início deste ano e temos pacientes com Parkinson, epilepsia, insônia, problemas gastrointestinais, entre outras enfermidades", ressalta o médico Pedro Pierro.


Fonte:Terra

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Técnica para previsão de convulsões em pacientes com epilepsia vence prêmio Beatriz Neves

Maria Fernanda Ziegler  |  Agência FAPESP – Gustavo Henrique Tomanik, recém-formado no curso de graduação em Física Médica na Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu, foi um dos vencedores do prêmio Beatriz Neves 2018, pelo estudo de técnica matemática-computacional para a previsão de convulsões em pacientes com epilepsia.
Concedido pela Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC), o prêmio tem como objetivo incentivar a participação de alunos de graduação em atividades de iniciação científica, em caráter nacional e no âmbito de Matemática Aplicada e Computacional. Há também uma categoria exclusiva para estudantes de pós-graduação.
Pacientes com epilepsia sofrem de alterações temporárias da atividade das células nervosas no cérebro, o que pode causar episódios repentinos de convulsão. Durante a iniciação científica, com bolsa da FAPESP, Tomanik utilizou conceitos da teoria de Redes Complexas para identificar alterações na atividade elétrica cerebral e assim predizer se uma convulsão estaria prestes a acontecer. Ele também utilizou dados obtidos pela técnica da eletroencefalografia (EEG), que consiste no registro gráfico das correntes elétricas desenvolvidas no encéfalo, por meio de eletrodos aplicados no couro cabeludo.
“Por meio da análise de dados de EEG de 23 pacientes e de um algoritmo de análise de dados fisiológicos, desenvolvido no meu doutorado, Tomanik mapeou esses dados em redes complexas e, por meio destas, detectou períodos que precedem e antecedem uma convulsão e também com convulsão epilética em plena atividade”, disse Adriana Campanharo, professora assistente doutora do departamento de Bioestatística da Unesp de Botucatu e orientadora de Tomanik.
“Os resultados obtidos podem contribuir significativamente na melhora da qualidade de vida de pacientes com epilepsia que se veem muitas vezes isolados por conta do impacto físico, psicológico e social que a doença ainda apresenta”, disse Tomanik.
Parte da iniciação científica foi desenvolvida nos Estados Unidos por meio de uma Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior da FAPESP.
“No laboratório do professor Luís Amaral, na Northwestern University, Tomanik pôde desenvolver parte de seu estudo no âmbito de um dos maiores grupos de pesquisa do mundo na área de redes”, disse Campanharo.
Tomanik iniciou em 2018 mestrado em Biometria pelo Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu, também orientado por Campanharo. O projeto agora tem um desafio duplo: fornecer uma estimativa do tempo máximo que antecede uma convulsão e investigar estratégias de localização da zona epileptogênica, região do cérebro onde surgem as convulsões.
“Como aproximadamente 30% dos pacientes com epilepsia não respondem ao tratamento com drogas antiepilépticas, a detecção e remoção de tal zona proporcionaria a cura da doença em tais pacientes”, disse a orientadora.
O novo estudo conta com a colaboração do professor Luiz Betting, do Departamento de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Unesp, com o fornecimento de novos dados de EEG e contribuição nas análises. 
Fonte: Agência FAPESP

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Canábis terapêutica autorizada a partir de 1 de novembro no Reino Unido

A canábis terapêutica vai ser autorizada no Reino Unido, mediante prescrição, a partir de 1 de novembro, anunciou esta quinta-feira o ministro do Interior, Sajid Javid.
O governante sublinhou, contudo, que a medida não abre caminho para uma legalização da canábis para uso recreativo.
"A minha intenção sempre foi garantir que os doentes possam ter acesso ao tratamento médico mais apropriado, mas indiquei sempre claramente não ter qualquer intenção de legalizar o uso recreativo da canábis", explicou.
Vários casos de pessoas doentes que recorreram ilegalmente à ajuda de produtos derivados da canábis, incluindo os de duas crianças com epilepsia que tomavam óleo de canábis, Alfie Dingley e Billy Caldwell, foram alvo de muita atenção mediática no Reino Unido, alimentando o debate sobre a autorização da canábis terapêutica.
O ministro do Interior britânico pediu a 19 de junho a dois grupos de especialistas independentes que estudassem a questão.
Uma primeira análise, realizada por Sally Davies, a principal conselheira médica do Governo, concluiu estar provado que a canábis médica tinha benefícios terapêuticos.
O Conselho Consultivo sobre o Abuso de Droga considerou, por seu lado, que os médicos deveriam poder prescrever canábis terapêutica desde que os produtos cumprissem as normas de segurança.
O interesse pela canábis, ou cânhamo indiano, utilizada como planta medicinal, foi relançado nos anos 1990 pela descoberta de um composto análogo produzido pelo organismo, o canabinóide endógeno, presente tanto no cérebro dos seres humanos como dos animais.
Desde então, dezenas de estudos confirmaram o interesse da canábis terapêutica para tratar, por exemplo, espasmos musculares na esclerose múltipla e na epilepsia, dores crónicas em algumas patologias neurológicas, ou ainda para impedir náuseas e vómitos em doentes com cancro.
Vários outros países europeus já legalizaram a canábis terapêutica, como a Alemanha, a Áustria, a Finlândia e a Itália.
Fonte: Jornal de Notícias

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

SUS atrasa droga para epilepsia e prejudica ao menos 312 mil

Falta de entendimento entre secretarias e ministério dificulta acesso a remédio indicado para conter crises convulsivas.
Incorporado no Sistema Único de Saúde (SUS) no ano passado para controlar convulsões de bebês com síndrome congênita de zika e para tratar pacientes com epilepsia, o medicamento levetiracetam ainda não é encontrado na rede pública. O atraso na oferta é atribuído a uma falta de entendimento entre governo federal e secretarias de saúde sobre quem pagará a conta da aquisição do remédio.
"Enquanto uma decisão não vem, o que vemos é uma legião de pacientes esperando, que poderia ser beneficiada com tratamento ou protegida de efeitos colaterais de drogas atualmente utilizadas. É muito frustrante", afirma a professora de Neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Clarissa Yasuda.
A estimativa é de que o medicamento poderia ser usado por pelo menos 312 mil pacientes brasileiros. O levetiracetam já é indicado há anos na Europa e vendido em farmácias no Brasil.
Maria Luiza Manreza, coordenadora do Departamento Científico de Epilepsia da Academia Brasileira de Neurologia, afirma que uma das principais indicações do remédio é para mulheres com o problema em idade fértil ou que estão grávidas. "Estudos mostram que remédios usados para controlar as crises têm efeitos negativos na formação do feto. E um deles, o valproato, por exemplo, tem efeitos ainda mais nocivos. Com isso, não temos ferramentas para tratar essas pacientes", resume Maria Luiza.

Risco menor

No caso de crianças, o uso do levetiracetam reduz o risco de efeitos colaterais na capacidade cognitiva. Enquanto a droga não é adotada no SUS, bebês com síndrome congênita recebem nos postos públicos o carbamazepina, que é indicada para o tratamento de crises convulsivas e de doenças neurológicas e psiquiátricas, e o ácido valpróico.
O levetiracetam teve a primeira indicação aprovada na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) em agosto do ano passado. A decisão foi publicada no início de dezembro. Pela regra vigente, o governo tem 180 dias para ofertar o medicamento na rede pública.
À época, informação divulgada pela assessoria da Conitec apontava que o medicamento é "especialmente indicado para pacientes que precisam de pelo menos dois anticonvulsionantes e também eficaz em pacientes com microcefalia ou epilepsia mioclônica juvenil, uma forma que ocorre na adolescência e tem relação com a história familiar dos indivíduos".
No relatório de recomendação da Conitec, apresentado em julho do ano passado, o impacto orçamentário da incorporação do medicamento em cinco anos foi calculado em R$ 329,034 milhões, sendo cerca de R$ 29,45 milhões no primeiro ano de investimento.
À época, o preço do remédio considerado no relatório era de R$ 0,79 por comprimido, na apresentação de 250 mg, mas a dose inicial prevista na bula é de 1.000 mg por dia, podendo chegar a 3.000 mg ao dia.
Questionado, o Ministério da Saúde informou, em nota, que a definição sobre o pagamento do medicamento será tema de uma reunião entre representantes da pasta, secretários estaduais e municipais de saúde, marcada para o fim do mês.
Maria Alice Mello Susemilhl, presidente da Associação Brasileira de Epilepsia, no entanto, afirma que o tema já havia sido discutido em outra reunião, sem que uma solução fosse encontrada. "A ansiedade de pacientes é enorme. Imagine saber que o medicamento já foi liberado e não há prazo para ele, de fato, chegar a você."

Efeito colateral

Clarissa afirma que os medicamentos usados atualmente no controle de convulsões disponíveis no SUS têm entre os principais efeitos colaterais a interação com outras drogas. "Ele acaba alterando a eficiência de medicamentos usados, por exemplo, para diabete, para asma", observa a professora da Unicamp.
Além disso, o levetiracetam é dado em duas doses, o que permite ao paciente seguir de forma adequada o tratamento. "O que vou dizer para um paciente do SUS? Para ele comprar o remédio do próprio bolso?"
No entanto, foi o que fez a pedagoga Ismenia Lopes Oliveira, de 32 anos. "Gasto cerca de R$ 250 por mês. Felizmente trabalho, tenho como pagar. Mas e quem não pode?", indaga a pedagoga.

Trocas

As primeiras convulsões começaram quando ela cursava a faculdade, em 2007. No início eram três episódios por dia. "Consegui me formar com muito esforço. O desempenho caiu, mas não desisti."
Depois disso, ela trocou algumas vezes de medicação e fez uma cirurgia. Há dois anos, foi indicado pelo médico um medicamento, que fez com que ela perdesse muito peso. "Tenho 1,75 metro. Estava com 47 quilos. Todos os conhecidos me perguntavam o que eu tinha", conta Ismenia.
Foi aí que ela fez a troca do medicamento. Na ocasião, a frequência e a intensidade das crises já haviam diminuído de forma significativa. "Com o remédio, recuperei peso e crises se reduziram ainda mais. Hoje tenho, às vezes, crises de ausência. Algo que só eu percebo."

Outros medicamentos em falta

Como o Estado mostrou há duas semanas, há pelo menos quatro meses o Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems) vem apresentando queixas com relação à falta de medicamentos. Por isso, lançou publicamente um levantamento realizado com 4 mil municípios para mostrar os principais gargalos.
Entre os exemplos citados por secretários estão remédios para hepatite C (daclastavir e sofosbuvir), para pacientes transplantados e aqueles em tratamento para Alzheimer. Na lista também estão incluídos até produtos mais baratos, como anticoncepcionais.

Fonte: Terra