quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Epilepsia: modelos matemáticos para compreensão e tratamento da doença

Pensar a introdução das tecnologias de informação e comunicação na ciência abre a possibilidade de vislumbrar as mudanças ocorridas na produção do conhecimento. Exemplos simples podem ser encontrados na prática científica contemporânea: a facilidade em recuperar referências na rede por meio de sites que oferecem acesso livre a artigos científicos, a rapidez com que se procede à identificação de pesquisadores que trabalham temas de interesse – no intuito de estabelecer parcerias – e o uso das tecnologias para mapear a produção científica de determinada área.
Neste contexto, quando as tecnologias digitais passam a ser vistas como ferramentas de pesquisa, acabam por disseminar práticas de conhecimento distintas, fornecendo traduções entre diferentes campos de pesquisa. Essas interpretações podem se dar em diferentes níveis e variam de acordo com o problema científico, as áreas em inter-relação e, ainda, a disposição e a capacidade dos pesquisadores envolvidos em manusear tais recursos.
No caso de Antônio-Carlos de Almeida, coordenador do projeto “Efeitos dinâmicos dos mecanismos sinápticos e não-sinápticos em epilepsias refratárias” – desenvolvido junto ao Laboratório de Neurociência Experimental e Computacional da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) –, a disposição para atuar em projetos com essas características apareceu desde muito cedo em sua formação. Graduado em Engenharia Elétrica, o pesquisador confessa o eterno fascínio pelos princípios biológicos, assim como pela possibilidade de descrever um sistema físico por meio de equações matemáticas. Dessa forma, na Engenharia, ele encontrou os atrativos fundamentais para treinar o jogo de observação e descrição que, posteriormente, usaria para estudar os sistemas biológicos – e, mais especificamente, os processos epileptogênicos (fatores responsáveis pela epilepsia).

Caminhos interdisciplinares

Nos anos 1990, ao ingressar no Programa de Engenharia Biomédica do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para cursar o mestrado, o pesquisador investiu no estudo da Neurociência, pela perspectiva da Engenharia. Contudo, apenas no doutorado – também realizado na UFRJ, sob a orientação do professor Antonio Fernando Catelli Infantosi –, é que o pesquisador dedicou, de fato, à modelagem matemática e às suas representações computacionais, voltadas ao estudo das epilepsias.
“À época, assumi o desafio de modelar uma atividade cerebral denominada ritmo teta, bem como atividades epileptiformes. Durante esse período, fui altamente incentivado por um grande neurocientista brasileiro, Hiss Martins Ferreira, do Instituto de Biofísica da UFRJ. De forma incansável, ele me entusiasmava ao estudo de outro fenômeno, também associado à epilepsia, denominado depressão alastrante*. Assim, ao assumir meu cargo na Universidade Federal de São João del-Rei, iniciei o desafio de construir um laboratório voltado à investigação das epilepsias e da Depressão Alastrante, o Lanec”, conta o pesquisador.
Segundo Antônio-Carlos, os trabalhos do Laboratório são desenvolvidos com base na estratégia de realizar medidas experimentais em fatias do cérebro e reproduzir esses achados em simulações computacionais baseadas em representações matemáticas dos tecidos neuronais.
Desse modo, a relação interdisciplinar entre a Engenharia e a Biologia, na visão do pesquisador, apresenta grande potencial científico. Seria muito difícil, afinal, abordar fenômenos biológicos complexos, a exemplo da epilepsia, sem o uso dos conhecimentos e práticas da Engenharia. Em sua perspectiva, o exercício fundamental consiste na descrição dos processos neurofisiológicos envolvidos, para, então, buscar-se identificar sob quais circunstâncias as alterações nesses processos poderão favorecer a deflagração de crises. “É exatamente aí que a pesquisa tem seus maiores ganhos”, afirma.

Cérebro equacionado

A pesquisa desenvolvida insere-se no âmbito do projeto Neurociências Epilepsia e tem apoio conjunto da FAPEMIG e da Fapesp. O estudo busca contribuir para o entendimento das epilepsias refratárias a medicamentos, com destaque àquelas que afetam, em grande parte, pacientes na fase infantil. De acordo com o pesquisador, a investigação da excitabilidade neuronal durante as transições entre os períodos ictal (estado fisiológico durante a crise) e interictal (estado fisiológico entre crises), nesse tipo de atividade, envolve sequência intrincada de interações de fluxos iônicos que não podem ser investigadas simultaneamente durante medidas experimentais. Neste caso, a simulação computacional é uma ferramenta poderosa, que permite testar hipóteses, agrupar informações experimentais de forma conexa e fazer previsões.
As simulações auxiliam a investigação experimental da influência de alterações geométricas do tecido cerebral em função do desenvolvimento, e, ainda, de modificações morfológicas (não-sinápticas) induzidas nos modelos experimentais de epilepsia. “Longe de desprezar a importância dos mecanismos sinápticos na gênese da epilepsia, a presente proposta considera que não se pode ignorar os mecanismos não-sinápticos (MNS) na instalação, curso e progressão dessa patologia”, avalia.
Para que se pudesse avançar nas proposições atuais da pesquisa, que envolvem interação com profissionais da área médica do estado de São Paulo, Almeida avalia a importância dos estudos realizados tanto para a modelagem matemática dos mecanismos associados ao fenômeno, quanto para os mecanismos não-sinápticos responsáveis pela transição entre os fenômenos epilepsia e Depressão Alastrante.
Para Antônio-Carlos, na medida em que os processos constituintes das epilepsias são representados por meio de equações matemáticas, entende-se, cada vez mais, a complexidade da doença. Diante dos consideráveis avanços alcançados, Almeida destaca como fundamental a ação colaborativa de diferentes especialistas envolvidos com o tema. Adotar a perspectiva interdisciplinar, portanto, revela-se, na visão do pesquisador, algo extremamente importante.
Na experiência da UFSJ, Antônio-Carlos salienta não apenas a formação de mestres e doutores em Bioengenharia, mas, também, a proposição de um novo curso de graduação voltado à formação de profissionais dentro do perfil interdisciplinar da Engenharia Biológica. “É um grande desafio formar profissionais capazes de atuar de forma interdisciplinar. Porém, temos docentes com experiência de mais de 20 anos de atuação em suas áreas, e, portanto, com qualificação para realizar, com êxito, essa tarefa”.

Fonte: Minas Faz Ciencia


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Neurologista da FCM conduz conversa sobre epilepsia

A epilepsia atinge cerca de 1% da população mundial, mas ainda é uma doença neurológica pouco debatida na sociedade e que sofre de muitos estigmas. “Conversar sobre o tema ainda é a melhor solução para quebrar preconceitos em relação à doença”, afirma a neurologista Ana Carolina Coan, docente do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Na última sexta-feira (11), ela participou do evento “Conversando sobre Epilepsia”, organizado pelo ONG Aspe (Assistência à Saúde de Pacientes com Epilepsia), e que reuniu profissionais de saúde, pacientes, amigos e familiares para o esclarecimento de dúvidas.
De acordo com a presidente da Aspe e enfermeira do Ambulatório de Epilepsia do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, Isilda Sueli Assumpção, alguns pacientes não falam sobre a doença com outras pessoas. No entanto, aqueles que conversam sobre o assunto são os que melhor lidam com a doença. “Você não precisa falar na fila do caixa do supermercado que tem epilepsia, mas pode confiar o assunto para quatro ou cinco amigos, na escola, no trabalho. Se acontecer uma crise nesses ambientes, ninguém irá se assustar e poderá prestar auxílio”.
Ana Carolina Coan explica que cada caso é um caso, e que a individualidade do paciente deve ser respeitada. “Muitos pacientes não se sentem à vontade com a própria doença e isso precisa ser respeitado, mas, por outro lado, também é importante conversar sobre o assunto para que se possa ter o suporte adequado. Dependendo do tipo de epilepsia, alguns pacientes conseguem até pressentir a iminência de uma crise e avisar as pessoas mais próximas”.
Aos poucos, o público participante do evento foi compartilhando situações já vivenciadas por muitas pessoas que lidam com a epilepsia no dia a dia. “Durante a defesa de tese, meu amigo teve uma crise e não conseguia se lembrar de nada”, “Minha filha é adolescente, sente vergonha de ter a doença e não conta para os amigos”, “Minha mãe não compreende a situação, acha que o que eu tenho é frescura”.
Para a neurologista Ana Coan, a educação é uma ferramenta poderosa para quebrar o preconceito. “Crianças que desde muito cedo, na escola, convivem com outros colegas com algum tipo de deficiência ou que sofram de epilepsia, sabem lidar muito mais naturalmente com esse tipo de questão”. A superproteção pode ser prejudicial, de acordo com a especialista. “O preconceito muitas vezes nasce do medo, do desconhecimento. Queremos proteger quem amamos, e muitas vezes essa superproteção impede que compartilhemos o assunto com outras pessoas fora do círculo familiar”, disse.
A convulsão é um sintoma característico de quem sofre de epilepsia, e saber como agir durante uma crise pode ser decisivo na hora de prestar auxílio ao paciente. No entanto, Ana Coan explica que muitas pessoas não sabem lidar com a situação, pelo simples desconhecimento. De acordo com a médica, as crises convulsivas podem ser desencadeadas por diversos fatores e cada caso deve ser analisado individualmente.
“Esquecer-se de tomar o remédio é um dos gatilhos para a convulsão. O álcool também pode influenciar. A privação do sono, estresse físico, variação hormonal. Luzes piscantes são mais raras, mas também pode desencadear uma crise”.
Diante de tantas dúvidas que ia surgindo durante a conversa, a médica da FCM também lembrou que as famílias devem conhecer o Sistema de Saúde brasileiro para saber reivindicar direitos. “A grande maioria dos pacientes pode ser atendida em hospitais de baixa complexidade. Você não precisa, necessariamente, ficar quatro ou cinco horas na fila da Unicamp para ser atendido”.
O uso da maconha também esteve no foco das perguntas dos participantes, sobre o qual, Ana Coan esclareceu: “Todo remédio precisa passar por um período de investigação científica para ter atestada a sua eficácia e segurança, e isso ainda não existe em relação à maconha. O Canabidiol (medicação elaborada a partir do extrato da maconha) parece apresentar alguma utilidade para os casos de pacientes com a síndrome de Dravet, mas não para os demais tipos de epilepsia. Em longo prazo, ainda não sabemos o que o ele pode causar aos pacientes”.
Faculdade de Ciências Médicas - Unicamp

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Epilepsia e festas de fim de ano: como conviver bem entre remédios e celebrações

Portadores de epilepsia sabem que suas crises podem acontecer a qualquer instante, mesmo durante o período das festas de fim de ano.  Por isso, vale conscientizar e alertar para os perigos da ingestão de bebidas alcóolicas por conta dos medicamentos. “Quem faz uso contínuo de remédios para o controle da epilepsia não pode parar de tomá-los e, por isso, também não deve ingerir bebida alcóolica, pois o medicamento terá sua eficácia diminuída”, explica o neurocirurgião Luiz Daniel Cetl, especialista em epilepsia pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN).
No entanto, não há necessidade de ficar fora da festa, uma vez que a sociabilidade é importante para os portadores de epilepsia. Em caso de dúvida sobre a relação medicamento e bebida alcóolica, a recomendação é sempre consultar um médico, com consulta presencial.
Por último, o especialista adverte que, independente do uso de medicações, o consumo de álcool deve ser sempre moderado. “Há possibilidade de interferência significativa no sistema nervoso central, com diminuição da percepção dos sentidos do indivíduo. O álcool possui a mesma via de metabolização da grande maioria das medicações, de uso contínuo ou não (fígado), e a ingestão associada interfere diretamente no efeito da medicação e até do álcool. Pode tanto reduzir o efeito do remédio quanto potencializá-lo, e ambas as situações nos pacientes em uso de medicações continuas pode, significar uma descompensação de uma doença controlada”, ressalta o neurocirurgião Luiz Cetl.

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Fonte: The São Paulo Times


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Projeto inclui canabidiol na lista de remédios gratuitos do DF

Foi só no início deste ano que o canabidiol deixou de ser proibido para ser classificado pela Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, como substância controlada. Com isso, passou a ser possível importar o medicamento mas, apenas, com a autorização da agência e somente para pacientes com epilepsia que não respondem bem às terapias convencionais.

As crises de epilepsia podem matar neurônios o que leva a problemas como a dificuldade de aprendizado, por exemplo. Na Câmara Legislativa do Distrito Federal tramita um projeto de lei que inclui o canabidiol na lista de medicamentos a ser fornecido gratuitamente pela Secretaria de Saúde para o tratamento de pessoas com epilepsia.


O projeto de lei já foi aprovado em primeiro turno. A proposta beneficia famílias de baixa renda e, também, as que não tem recursos financeiros para importar o medicamento. O projeto estabelece que, nesses casos, a secretaria fará a importação direta do canabidiol.

Fonte: EBC

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A epilepsia controlada

A tecnologia que promete melhorar a qualidade de vida de pessoas com epilepsia já está sendo testada em humanos. A informação saiu na revista Popular Science em novembro. Eletrodos instalados no cérebro de uma mulher de 32 anos recebem fluxos constantes de eletricidade, enviados por estimuladores implantados nas clavículas e conectados por fios que passam embaixo da pele. A paciente que está participando da pesquisa sofria de convulsões com uma certa frequência e, constantemente, caía e se machucava. Nos últimos seis meses ela teve apenas um episódio e os especialistas acreditam que, em breve, poderá estar totalmente livre dos sintomas. Isso se deve ao fato de que os equipamentos, além de estimularem, também gravam o comportamento do cérebro dela, o que ajuda os médicos a entender especificamente como a doença a atinge e com isso, aos poucos, ir melhorando a performance do equipamento que em breve deve ganhar uma versão totalmente sem fio e que permitirá envio de informações para os especialistas a distância. Em estudos preliminares, a técnica oferece menos efeitos colaterais e é mais eficaz que os mais modernos medicamentos usados para o tratamento da epilepsia. 

Fonte: Correio 24 horas

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Epilepsia: evolução, causas, sintomas e tratamentos

Novas soluções clínicas ajudam no controle de crises epiléticas e suas consequências.
A epilepsia é uma doença física que causa alteração temporária e reversível do funcionamento do cérebro, indicando que um grupo de células cerebrais se comporta de maneira instável causando reações físicas conhecidas como crises epilépticas. Essa condição pode ocorrer a partir de infecções do sistema nervoso central, acidentes vasculares cerebrais, tumores, traumatismos cranianos, alterações no desenvolvimento do cérebro durante a fase fetal ou até mesmo como sintomas da própria epilepsia. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente a doença afeta cerca de 65 milhões de pessoas, sendo aproximadamente 1,9 milhão só no Brasil. 
Os sintomas são os mais variados e as crises epiléticas duram alguns segundos ou minutos e podem ser acompanhada por manifestações clínicas como contrações musculares, mordedura da língua, salivação intensa, “desligamento” por alguns segundos, movimentos automáticos e involuntários do corpo, percepções visuais ou auditivas estranhas e alterações transitórias da memória. Segundo a neurologista Dr.Fabiana Lima, a doença não tem cura, mas o uso correto da medicação, sempre indicado pelo médico neurologista é que vai ajudar a controlar as crises e suas consequências. “O tratamento da epilepsia é feito através de medicamentos que evitam às descargas elétricas cerebrais, que dão origem as crises epilépticas”, afirma a especialista. 
Os remédios para controle da epilepsia atuam de diferentes formas. Em geral diminuindo a liberação dos transmissores que excitam aquela área propensa a ter crises ou estimulam a liberação de transmissores que tentam diminuir essa excitação. A Dr.Fabiana Lima alerta que somente um médico pode dizer qual o medicamento mais indicado para o seu caso, bem como a dosagem correta e a duração do tratamento. “Siga sempre à risca as orientações do seu médico e nunca se automedique. Não interrompa o uso do medicamento sem consultar um médico antes”, lembra a neurologista. A especialista ressalta ainda que quando utilizado de forma adequada, as medicações controlam as crises em 70% dos pacientes e o sucesso do tratamento depende fundamentalmente do paciente. 
Para o tratamento eficaz da doença, hoje a indústria farmacêutica tem se preocupado e investido muito em medicamentos para o controle da epilepsia, inclusive que provoque menos efeitos colaterais, trazendo evolução nos tratamentos com novas soluções clínicas para controlar as crises epiléticas. Para terapia adjuvante no tratamento de crises parciais com ou sem generalização secundária em pacientes a partir de 16 anos de idade com epilepsia, é possível encontrar no mercado hoje o medicamento antiepiléptico, com substância ativa lacosamida. Além disso, pensando no bem estar das pessoas com epilepsia, uma grande novidade chega ao mercado no primeiro semestre de 2016, que é medicamento  antiepiléptico inovador indicado como monoterapia para o tratamento de crises focais, com ou sem generalização secundária em pacientes a partir dos 16 anos com diagnóstico recente de epilepsia, a solução oral é indicada como terapia adjuvante no tratamento de crises  epilépticas focais em adultos, crianças e bebês a partir de 1 mês de idade com epilepsia; além disso, apresenta  aprovação para crises convulsivas mioclônicas em adultos e adolescentes a partir dos 12 anos, com epilepsia mioclônica juvenil; e crises  tônico-clônicas primárias generalizadas em adultos e crianças com mais de 6 anos de idade, com epilepsia idiopática generalizada. 
Segundo Dr.Fabiana Lima, é importante ressaltar que a falta de controle das crises epilépticas pode ocorrer porque as pessoas se esquecem de tomar os medicamentos, na suspensão do remédio sem orientação médica, ou algumas vezes tentando a “experiência” de pausar o medicamento imaginando-se curado. Essas condutas geralmente levam ao fracasso do tratamento. “É possível viver bem com epilepsia e ter uma vida plena desde que tenha o tratamento adequado, o que pode diminuir ou até zerar a quantidade de crises”, conclui Dr.Fabiana Lima.

Fonte: JB

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

"Vida nova", dizem pais de menina que há 2 anos usa o canabidiol

A menina Anny Fischer, de 7 anos, foi diagnosticada há dois anos com uma síndrome rara, que chegou a causar até 80 convulsões por semana. As crises duravam até dez minutos. Por conta dos ataques, ela desaprendeu a andar, não conseguia comer e passava os dias deitada na cama. Nenhum medicamento disponível ou a combinação entre eles ajudou a reduzir as crises. Foi então que os pais decidiram se arriscar e importar ilegalmente uma substância derivada da maconha, o canabidiol (CDB). O composto zerou as convulsões por nove meses e a decisão mudou a vida dos Fischer e de centenas de famílias do país.
Na semana em que completam dois anos desde que a menina começou a usar a substância, os pais dela, Katiele e Norberto Fischer, comemoram a nova desição da justiça federal que determinhou a Agência Nacional de Vigilança Sanitária (Anvisa) que retire o Tetrahidrocannabinol (THC), composto também presente na maconha, da lista de substâncias proibidas no Brasil. O TCH é usado em tratamento de doenças como epilepsia, mal de Parkinson e esclerose múltipla.
A compra do CDB e do TCH era ilegal porque os compostos são encontrados em uma droga ilícita. Ao contrário do entorpecente, as substâncias não alteram sentidos nem provocam dependência. Norberto Fischer diz que no início de novembro o Brasil atingiu a marca de mil autorizações individuais concedidas para importação excepcional de produtos à base dos dois produtos derivados.
"Foi a única coisa que deu resultado. E resultado que digo não é que a Anny vai se levantar e sair andando. Não é isso. É qualidade de vida. Os pais de crianças como a Anny buscam coisas simples. Que nossos filhos fiquem acordados ja é uma grande diferença. Queremos que eles consigam comer", diz a mãe, Katiele. "Quando falo que ela está melhor é porque consegue segurar a cabeça, saber que a mão vai na boca, cruzar a perna quando quer, fazer barulho e dar risadinha."

Síndrome

Katiele conta que percebeu algo diferente na filha quando ela tinha em torno de 45 dias. "Ela deu uma tremidinha e revirou o olhinho. Parecia uma convulsão", diz. "Pensei que não era nada, o tipo de coisa que 'só acontece com os outros'. Aí ela fez de novo e não deu para negar."
Por ser uma síndrome muito rara, os médicos levaram quatro anos para chegar ao dianóstico correto: CDKL5 - a família conseguiu localizar nove casos em todo o país, diz a mãe. "Nessa época, ela veio se desenvolvendo muito lentamente. Chegou a andar, mas tinha um espectro autista muito forte." Todo o desenvolvimento de Anny estagnou quando ela completou 4 anos e as crises convulsivas se tornaram mais frequentes e intensas.
"Ela tinha de 60 a 80 convulsões por semana. Ficava até dez minutos convulsionando", diz ela. "Em semanas ruins, dava uma média de uma crise a cada duas horas. Em um período muito curto de tempo parou de andar. Uma semana depois, não estava mais sentando e nem se mexendo. Tinhamos que virar ela na cama."
A menina tem uma forma de epilepsia generalizada. Quando ultrapassava seis crises sequenciais, precisava ser levada ao hospital para ser monitorada. "Não dispara um ladinho do cérebro. Dispara em qualquer ponto, é um risco iminente porque o cérebro entra em colapso, são descargas anormais", diz a mãe. "Era sempre uma tensão em casa. Antes, não conseguia atravessar o Eixão porque tinha parar no meio do caminho para acudir a Anny."

Katiele diz que se sentia desesperada até que leu na internet sobre um pai americano que usou o canabidiol para controlar as convulsões da filha. Foi então que decidiu tentar arriscar. "No dia 11 de novembro [de 2013], demos a primeira dose para a Anny. Era mais uma cartada, em meio ao desespero. Nosso medo era de que um dia ela não aguentasse a crise e... Poderia morrer, ter uma crise que causasse uma parada cardiorreespiratória."
Os primeiros resultados apareceram após nove semanas de uso. "Ela zerou as convulsões com uma dose do tamanho de um grão de arroz", diz. Os ataques foram interrompidos completamente durante nove meses. "Ela ainda tem algumas crises? Tem. Mas nada se compara ao que ela tinha antes. A qualquer momento, ela pode ter uma crise aqui. Mas com uma intensidade muito menor, e em quantidade muito menor."

Importação


O canadibiol, vendido como pasta, era enviado dos Estados Unidos dentro de uma seringa, camuflado em uma pequena caixa, como se fosse um presente. Depois de quatro meses, a alfândega detectou a substância e mandou para a Anvisa, que questionou a família.

Os Fischer então se mobilizaram para importar o medicamento de maneira legal e procuraram um advogado. Relataram o caso, apresentaram planilhas mostrando a redução das convulsões e levantaram informações sobre o canabidiol.
A família produziu um documentário de cinco minutos falando sobre a doença e sobre a substância, o que chamou a atenção da mídia. "Ficamos tão encantados por conta da melhora dela, que não dava para ficarmos quietos. Aí surgiu a proposta de fazer uma matéria [jornalística] e achamos que era a polícia que queria investigar", afirma Katiele.
A decisão favorável da Justiça saiu poucos dias depois. "Foi tudo muito rápido. Aí acabou gerando uma demanda social. Outros pais também ficaram sabendo e o telefone aqui de casa não parava de tocar. Foi uma avalanche em nossas vidas, que viraram de cabeça para baixo", diz a mãe.
Katiele afirma que a Anvisa reclassificou a substância após a decisão da Justiça e retirou o canabidiol da lista de substâncias proibidas, transferindo para a de medicamentos controlados. Meses depois, a Receita Federal simplificou o processo de importação e retirou os impostos cobrados.
"Agora, qualquer pessoa que precisa usar o remédio da maconha à base de canabidiol faz um processo normal, como se fosse comprar qualquer medicamento que não tem registro no Brasil", diz. A anvisa ainda precisa autorizar a importação da substância.

Entraves

Cada seringa custa entre U$ 200 e U$ 500. O tempo de duração depende da pessoa e da dosagem. A família afirma que muitos pais recorrem ao Ministério Público para que o Estado custeie o medicamento. "É mais barato pagar canabidiol do que pagar UTI para essas crianças. Os relatos são impressionantes."
Os Fischer afirmam que o processo de importação pode melhorar. A retirada do teto de U$ 3 mil por importação, o que impede que a compra seja feita em grande quantidade, é um dos pontos relatados pelo casal.



Katiele diz que o processo de importação também se tornou mais simplificado na alfândega, desde a liberação. Antes, era preciso ir até São Paulo ou pagar despachantes para que o produto passasse pelo desembaraço aduaneiro. A Receita Federal reviu a portaria que tratava do assunto. Atualmente, a própria empresa importadora se encarrega de fazer o medicamento chegar até as famílias.
A família recebe ligações diárias de pessoas de países como Chile, Síria e Uruguai pedindo ajuda e informações. Katiele se emociona quando lê o recado que ela recebeu.
"Uma mãe nos mandou uma mensagem dizendo que a filha dela, de 38 anos de idade, pela primeira vez tinha ficado uma semana sem fazer xixi na fralda", diz. "Outra mãe nos contou que pela primeira vez tinha ido ao shopping e ao parque passear, sem ter que levar o tubo de oxigênio."
Anny toma a substância três vezes ao dia. "Quando a gente fala qualidade de vida, é qualidade de vida mesmo. Não só dela, mas da família inteira", diz. A família espera que a criança retorne à escola especial que ela frequentava, a partir de 2016.
"O que queria enfatizar é que ela não está curada, a síndrome não tem cura. O que ela tem hoje de diferente é qualidade de vida muito melhor do que tinha antes, fica acordada, interage, quando alguém chega ela olha, ela sorri, e isso não tem preço", diz a mãe.
"O prognóstico da síndrome não é bom porque é uma doença degenerativa. O grande passo é realmente a qualidade de vida. Lógico que a gente sempre tem esperança que ela melhore, volte a andar. É meu sonho."

Fonte: G1







segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Pesquisa da UFPA descobre que açaí combate efeito de convulsões

Um estudo denominado “Propriedades anticonvulsivantes da Euterpe Oleracea (açaí) em camundongos” foi realizado por um grupo de pesquisadores de vários laboratórios da Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele aponta que as propriedades do açaí são significativas no seu efeito protetor contra as convulsões.
A pesquisa também contou com o apoio das empresas Petruz Fruity e Amazon Dreams. O açaí usado no estudo foi preparado de acordo com uma patente de propriedade da Amazon Dreams, empresa incubada pela UFPA.
A pesquisa teve início com a linha de pesquisa sobre convulsões induzidas por pentilenotetrazol (PTZ), substância química usada para induzir convulsões em animais para que os pesquisadores possam estudar o efeito de fármacos anticonvulsivantes. Um grande número de evidências já sugeria que as crises convulsivas estavam relacionadas com uma situação de desequilíbrio denominada estresse oxidativo.
O pesquisador Rogério Monteiro explica o processo. “Nós tínhamos, de um lado, uma substância capaz de provocar o estresse oxidativo e, do outro, uma fruta com potente atividade antioxidante. Com isso, surgiu a pergunta: Será que o açaí teria um efeito anticonvulsivante através da prevenção do estresse oxidativo? A partir disso, nós começamos os experimentos para verificar essa hipótese”, afirma.

Pesquisadores utilizaram o açaí como adjuvante

O modelo utilizado na pesquisa foi de crises convulsivas induzidas pelo agente químico pentilenotetrazol. A equipe ainda não realizou os testes no modelo de epilepsia, em que os animais apresentam crises convulsivas espontâneas. Porém o modelo adotado foi útil por ser a primeira etapa para a triagem de novos fármacos anticonvulsivantes.
Segundo a professora Maria Elena Crespo, a diferença entre convulsão e epilepsia é que, na epilepsia, “a pessoa sofre convulsões sem uma origem clara para isso e elas são recorrentes e espontâneas. A epilepsia é uma doença crônica e, muitas vezes, refratária aos fármacos atualmente disponíveis, afetando cerca de 1% da população mundial. Sendo assim, nem toda crise convulsiva significa que o paciente é epilético”.
Nesse sentido, a pesquisa estudou a aplicabilidade clínica do açaí entendendo o uso da fruta como adjuvante. Ao contrário dos fármacos anticonvulsivos que possuem efeitos secundários, os estudos realizados até hoje sugerem que o açaí não apresentaria efeitos adversos evidentes.
"Estudos científicos comprovam que o açaí não é tóxico nas quantidades testadas, semelhantes àquelas do consumo humano. É crescente a busca por produtos naturais que possam ser incorporados como adjuvantes frente a algum tipo de doença”, afirma a pesquisadora do estudo, Gabriela Arrifano.
O açaí utilizado para realizar o experimento foi o açaí clarificado por um tratamento patenteado pela empresa Amazon Dreams. Ele foi escolhido por apresentar baixo teor de sólidos e gorduras e por ser concentrado em compostos fenólicos, necessários para a execução do efeito antioxidante. Porém o sabor, a cor e o aroma desse tipo de açaí são os mesmos da polpa tradicional vendida nas ruas e nos estabelecimentos comerciais.
Posteriormente, a equipe começou a fazer os testes nos animais. Foram utilizados 68 camundongos, separados entre quatro grupos experimentais: um grupo controle, que recebeu solução salina; um grupo que ingeriu somente açaí; um grupo administrado apenas com a droga pentilenotetrazol (PTZ) e outro grupo que recebeu tanto o açaí quanto a substância química.

Processo envolveu eletrocorticograma em camundongos

Os camundongos receberam açaí por via oral durante quatro dias e antes da droga ser aplicada. Primeiramente, foram avaliadas as características comportamentais. “Os animais que receberam açaí antes do PTZ demoraram mais até apresentar a primeira crise e as crises foram mais curtas. Com isso, observamos que o açaí reduziu a duração das crises e o tempo de início da primeira crise”, afirma Rogério Monteiro.
A etapa seguinte analisou o processo bioquímico de estresse oxidativo no cérebro dos animais. Esse parâmetro avaliou o aumento da peroxidação lipídica, que consiste na identificação dos danos provocados pelo estresse oxidativo, ou seja, a equipe quantificou a taxa de peroxidação lipídica para saber se, ao induzir as convulsões nos camundongos por meio do PTZ, o estresse oxidativo estava causando danos na membrana das células.
O resultado desse teste mostrou que as consequências do estresse oxidativo foram menores no cérebro dos animais que ingeriram açaí e receberam a droga PTZ. “O grupo controle e o grupo que tomou apenas o açaí tinham níveis normais de peroxidação lipídica. No grupo que usava somente o PTZ, o nível de peroxidação lipídica era maior, indicando o dano causado ao tecido. Porém, quando os animais tinham consumido o açaí antes de receber o PTZ, percebemos que o dano nas membranas das células (e por isso, no tecido cerebral) foi significativamente menor, ou seja, mesmo que alguém tivesse  convulsão, as consequências seriam menores do que em alguém que não tomou açaí”, explica Gabriela Arrifano.
Além da avaliação comportamental e bioquímica, a equipe também realizou um eletrocorticograma no cérebro dos animais. De forma semelhante àquela, quando se realiza um EEG (electroencefalograma) nos humanos, esse exame avalia as correntes elétricas que passam por uma parte superficial do cérebro. Na epilepsia, usa-se esse exame no diagnóstico das convulsões, pois elas provocam graves alterações do registro.

Resultados comprovam potência antioxidante da fruta

Na pesquisa realizada, esse registro demonstrou que o tratamento com açaí foi capaz de reduzir significativamente as alterações elétricas provocadas pelas convulsões. A pesquisa sugeriu que o alto poder antioxidante do açaí poderia ser um dos principais responsáveis pelos efeitos protetores demonstrados contra as convulsões. Assim, para apoiar essa hipótese, o poder antioxidante do açaí clarificado foi “desafiado” em um ensaio químico com componentes reativos. Com isso, no final do processo, ficou comprovada a potência antioxidante da fruta.
Para o pesquisador Rogério Monteiro, “este trabalho é de grande contribuição para a sociedade. A epilepsia é uma doença comum no mundo e, por meio desse estudo, as pessoas serão beneficiadas com o uso do açaí como adjuvante barato e de fácil acesso. Ter na Amazônia uma substância como essa representa um impacto enorme para a sociedade”.
Nesse sentido, cabe também destacar a importância acadêmica do estudo. “Todo esse processo de pesquisa foi realizado integralmente pelos laboratórios da UFPA. Além disso, a pesquisa foi publicada em uma revista internacional reconhecida na nossa área, ou seja, somos capazes de fazer pesquisa de qualidade internacional e, ao mesmo tempo, formar alunos de alta capacidade intelectual”, enfatiza a professora Maria Elena Crespo.

Fonte: G1