A epilepsia, que afeta cerca de 50 milhões de pessoas no mundo e 300 mil na Argentina, ainda é uma doença desafiadora de acompanhar. Muitos pacientes têm crises noturnas ou imperceptíveis, dificultando o controle clínico e o ajuste da medicação. Agora, um grupo de cientistas argentinos encontrou uma forma promissora de identificar alterações no metabolismo que precedem ou seguem essas crises — um avanço que pode mudar a forma como médicos monitoram a condição.
O papel dos biomarcadores
O estudo, publicado na revista Scientific Reports (do grupo Nature), concentrou-se na busca por biomarcadores — moléculas que funcionam como “sinais” do corpo para indicar o que está acontecendo internamente. Elas não são a causa direta da doença, mas refletem mudanças provocadas por ela. Identificá-las é crucial para entender o estado de um paciente e ajustar seu tratamento de forma precisa.
Segundo Martín Arán, biólogo e diretor da área de Ressonância Magnética Nuclear da Fundação Instituto Leloir, o trabalho levou dois anos e envolveu 32 pacientes com epilepsia atendidos no Hospital Italiano. “Foi um esforço enorme, especialmente do neurologista Juan Carlos Ávalos, que precisava estar de prontidão, muitas vezes de madrugada, para coletar o sangue dos pacientes antes e depois das crises”, contou o pesquisador.
A tecnologia por trás da descoberta
A equipe analisou amostras de sangue usando uma técnica de ressonância magnética nuclear, que permite observar o comportamento dos metabólitos — pequenas moléculas presentes no sangue, diferentes de proteínas ou lipídios, que refletem o estado químico do organismo. Entre os compostos identificados estavam hipurato, piroglutamato e isovalerato, substâncias que apresentaram variações significativas antes e depois das crises epilépticas.
“Em vez de obter imagens, como em exames convencionais de ressonância, usamos imãs muito mais potentes para detectar sinais atômicos das moléculas”, explicou Arán. “Assim conseguimos visualizar um painel completo de metabólitos simultaneamente.”
A técnica, embora sofisticada, tem potencial para ser implementada em larga escala. “É um método rápido, pouco invasivo e que tende a se tornar acessível”, afirmou o cientista. “Pode revelar até crises que ocorrem à noite, sem que o paciente perceba.”
Da pesquisa básica à prática médica
O projeto nasceu de uma conversa entre Arán e Ávalos, que buscava maneiras de acompanhar com mais precisão os pacientes da unidade de vídeoeletroencefalograma do Hospital Italiano. A parceria uniu a expertise clínica do neurologista à tecnologia de ponta do Instituto Leloir.
Os resultados iniciais, embora baseados em um número limitado de casos, mostraram correlações estatísticas fortes. “É impossível não se entusiasmar”, declarou Ávalos. A equipe planeja expandir o estudo e explorar novas moléculas ligadas à inflamação e ao metabolismo energético.
Segundo Arán, o objetivo final é construir um painel metabólico capaz de indicar, em tempo real, alterações que precedem uma crise ou sinalizam a necessidade de ajuste na medicação. Esse tipo de abordagem pode tornar o tratamento mais personalizado, evitando efeitos colaterais e aumentando a eficácia das terapias.
Um passo rumo à medicina de precisão
O avanço argentino reflete uma tendência global na medicina: usar informações moleculares para adaptar os tratamentos ao perfil de cada paciente. No caso da epilepsia, isso significa reduzir o uso empírico de medicamentos e identificar, com precisão, quem responderá melhor a cada tipo de fármaco.
Arán resume a importância do trabalho com entusiasmo: “Nós viemos da pesquisa básica, mas ver nossos resultados se aplicando em pessoas reais é muito motivador. Esta é apenas a primeira parte — ainda há muito a descobrir.”
Se confirmadas em estudos maiores, essas descobertas podem abrir caminho para uma nova era no diagnóstico e no tratamento da epilepsia — uma era em que um simples exame de sangue possa revelar o que hoje só se descobre após uma crise.
Fonte: Clarín

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